Nem todo campeão de audiência é sinônimo de obra-prima, mas a lista dos filmes mais assistidos da Netflix em 2025 mostra que, quando elenco, direção e roteiro se alinham, o resultado costuma prender o espectador até o último segundo.
Do retorno bombástico de Jamie Foxx à animação que colocou ídolos do K-pop para caçar demônios, cada título traz seus próprios méritos – e tropeços – artísticos. O Blockbuster Online acompanhou de perto o desempenho dessas produções e destrincha agora o que funcionou (ou não) em termos de performance, escolhas de direção e qualidade de texto.
Ação pura em “De Volta à Ação” destaca Jamie Foxx e Cameron Diaz
Dirigido por Seth Gordon, “De Volta à Ação” entrega adrenalina sem trégua ao colocar Jamie Foxx e Cameron Diaz como ex-agentes da CIA que tentam levar uma vida pacata em família. A dupla segura o filme com carisma: Foxx alterna com naturalidade entre humor e tensão, enquanto Diaz confere à personagem Camila um cinismo afiado que impede a trama de cair na mesmice.
O roteiro, assinado por Tim Roche, aposta em set pieces bem coreografadas, mas peca por jogar seguro demais. Ainda assim, a química dos protagonistas compensa a previsibilidade. A bilheteria de streams – o longa passou semanas no Top 10 global – mostra que, às vezes, o público quer mesmo é explosão coreografada e atores confortáveis em seus arquétipos.
Animação familiar domina com “Pets – A Vida Secreta dos Bichos” e “Meu Malvado Favorito 3”
Relançado na plataforma, “Pets – A Vida Secreta dos Bichos” (dir. Chris Renaud) voltou a brilhar graças à leveza do enredo, centrado no cão Max enquanto os donos estão fora. O elenco de vozes, liderado por Louis C.K. na versão original, sustenta piadas rápidas que funcionam inclusive para adultos. A crítica, porém, cobrou mais profundidade na mensagem, algo que o roteiro de Brian Lynch não se esforça em desenvolver.
Já “Meu Malvado Favorito 3” encara o desafio de ser o meio da franquia: Pierre Coffin e Kyle Balda conduzem a narrativa de Gru tentando equilibrar a carreira de ex-vilão e a vida de pai. Steve Carell continua impagável, mas a enxurrada de subtramas comprime a edição de 90 minutos. Ainda assim, o charme dos Minions garantiu ao filme lugar na lista anual.
Sequências que surpreenderam: “Happy Gilmore 2” e “Meu Malvado Favorito 4”
Adam Sandler retorna ao green em “Happy Gilmore 2”, dirigido por Frank Coraci. A trama faz o anti-herói voltar ao golfe após uma crise pessoal, explorando luto e redenção. Sandler entrega uma atuação contida, bem distante do humor escrachado de outrora, o que rendeu elogios pontuais da crítica. O roteiro tem lapsos sentimentais previsíveis, mas os fãs da comédia esportiva original embarcaram na nostalgia sem reclamar.
Na contramão, “Meu Malvado Favorito 4” mostrou que franquias podem evoluir. Chris Renaud, agora ao lado de Patrick Delage, foca no passado de Gru para aprofundar conflitos. A família toda ganha participações relevantes, evitando o velho foco unilateral no patriarca. O resultado? Audiência superior ao capítulo anterior e críticas mais brandas, prova de que a série ainda tem fôlego – algo raro, como também ocorre com produções seriadas de longo prazo, exemplo de A Diplomata, que mantém 97 % de aprovação antes da quarta temporada.
Imagem: Internet
Pancadaria, drama e suspense europeu: “Caos”, “Straw” e “Exterritorial”
“Caos” coloca Tom Hardy sob a batuta de Gareth Evans, especialista em artes marciais desde “Operação Invasão”. Aqui, o diretor entrega corredores estreitos, câmera nervosa e coreografias brutais. Hardy vive o detetive Patrick com intensidade animal, mas o público reclamou da história genérica. Críticos, por sua vez, valorizaram a técnica: poucas produções de ação na Netflix exibem tamanha precisão nos golpes.
Na outra ponta do espectro, “Straw” mergulha em miséria urbana. A estreante Deja Warren dirige e roteiriza o drama de Janiyah, interpretada com fúria contida por Dominique Fishback. A espiral de tragédias que a leva a assaltar um banco divide opiniões: alguns veem mero choque, outros enxergam estudo de personagem. Fato é que Fishback carrega a tragédia com olhar aflito que não desgruda da câmera.
Representando o suspense europeu, “Exterritorial” (dir. Christian Alvart) mistura diplomacia e ação quando o filho de Sarah desaparece dentro do Consulado dos EUA em Frankfurt. Karoline Herfurth sustenta a tensão, mas o roteiro exige suspensão de descrença em certos giros narrativos dignos de videogame. Ainda assim, o longa passou doze semanas no topo semanal da plataforma, reflexo de um plot de alto conceito que fisga logo no primeiro ato.
“A Lista da Vida” e o fenômeno “Caçadores de Demônios K-Pop” encerram o ranking
Com direção de Stacie Passon, “A Lista da Vida” aposta na combinação rom-com e drama familiar. Haley Lu Richardson vive Alex, forçada a cumprir metas adolescentes para obter a herança da mãe. A atriz entrega vulnerabilidade sem soar piegas, e a química com Nick Robinson sustenta as partes cômicas. A crítica, porém, reclamou do excesso de clichês – problema semelhante ao de muitos blockbusters que recorrem a fórmulas, como se viu quando Vingadores: Ultimato precisou de uma simples busca no Google para corrigir um furo de roteiro.
Fechando a lista, “Caçadores de Demônios K-Pop” é o maior hit de 2025. A animação sul-coreana, dirigida por Maggie Kang, brinca com coreografias e batalhas místicas ao som de faixas grudentas. O trio de dublagem principal – composto por Jennie Kim, Jimin Park e Suga Min – dá identidade própria a cada integrante da banda. O roteiro de Mingjoo Kim equilibra drama juvenil, espetáculo musical e ação sobrenatural, garantindo alta taxa de replay. Não à toa, o filme nadou de braçada na audiência e cravou recordes históricos de horas vistas.
Vale a pena dar play?
Para quem gosta de variedade, a safra de 2025 oferece desde ação visceral até músicas chiclete. As melhores performances estão em “Caos” – pela entrega física de Tom Hardy – e em “Straw”, que revela o talento dramático de Dominique Fishback. Já quem busca diversão descompromissada encontra em “Caçadores de Demônios K-Pop” e “Pets – A Vida Secreta dos Bichos” opções certeiras para toda a família. No fim, cada título justifica sua posição no Top 10 ao conversar bem com seu público-alvo, mesmo que alguns faltem em ousadia.
