Kingdom Come: Deliverance 2 ainda nem chegou às prateleiras, mas já domina as conversas sobre o que realmente configura um RPG em 2025. O diretor de design Viktor Bocan concedeu entrevista detalhando as escolhas que colocam o game da Warhorse Studios em rota oposta ao “RPG genérico” que virou tendência.
Em vez de apostar apenas em árvores de habilidade ou telas de status, o estúdio tcheco promete uma experiência na qual a liberdade para errar, aprender e lidar com consequências torna-se o verdadeiro núcleo da aventura medieval. A discussão, obviamente, reaquece o velho dilema sobre classificação de gênero e coloca Kingdom Come: Deliverance 2 no centro de um mercado abarrotado de jogos que se vendem como RPG, mas oferecem pouca ou nenhuma possibilidade de interpretação de papéis.
Protagonista “folha em branco” e o peso do crescimento pessoal
A principal bandeira levantada por Bocan é o conceito de um protagonista completamente ordinário. Henry retorna como um jovem sem habilidades especiais, o que exige do jogador esforço real para aprender a ler, manejar espada ou até beber sem desmaiar em pleno boteco. É um ponto que o diretor não cansa de enfatizar: começar do zero faz com que cada pequena conquista pareça merecida.
Segundo ele, games que entregam personagens prontos sacrificam a sensação de progresso. Em Kingdom Come: Deliverance 2, ler um documento ou dominar a montaria de um cavalo não são tutoriais obrigatórios; são escolhas que impactam a jornada inteira. Essa filosofia ecoa no mercado enquanto outras produções, como Emberville — que mistura agricultura e combate e chega ao Steam em 2026 —, buscam equilíbrio entre liberdade e narrativa guiada.
A liberdade como alicerce do design
Para Bocan, estatísticas e opções de diálogo não bastam para merecer a etiqueta de RPG. Ele sustenta que um jogo só permite “interpretar um papel” quando deixa o jogador criar soluções, aceitar o fracasso e lidar com resultados imutáveis. Kingdom Come: Deliverance 2 abraça justamente essa tríade: liberdade, consequências e crescimento.
O diretor relembra que, nos estágios iniciais de produção, cogitou-se tornar Henry o único alfabetizado da vila. A ideia parecia inofensiva, porém foi descartada por comprometer a proposta de livre construção do personagem. O time preferiu manter todas as portas abertas, inclusive a de terminar a campanha sem jamais encostar em um alfabeto. Uma decisão que, na prática, reforça a autenticidade histórica e dá fôlego à criatividade do jogador.
Comparações inevitáveis no cenário dos grandes lançamentos
O debate sobre o que é ou não é um RPG ganhou força depois que Kingdom Come: Deliverance 2 foi indicado ao The Game Awards 2025 e perdeu para Clair Obscur: Expedition 33. Embora o título vencedor apresente progressão de personagem, customização de grupo e narrativa densa, a equipe da Warhorse argumenta que falta a ele um ingrediente essencial: a plena liberdade de agir.
Bocan não critica diretamente concorrentes, mas deixa claro que sistemas de classe fixa ou enredos excessivamente engessados limitam a experiência. O raciocínio ecoa em discussões de fóruns e repercute no Blockbuster Online, onde leitores apontam a contradição de chamar todo jogo com pontos de XP de “RPG”. Esse cenário amplo leva até a mudanças práticas: a nova configuração de reviews da Steam ajuda jogadores a filtrar títulos pela recepção local, mas ainda não resolve a confusão de gêneros.
Imagem: Internet
Atuação de voz e imersão histórica
Apesar do foco no design de sistemas, Deliverance 2 também se apoia fortemente na performance do elenco de dublagem para sustentar o realismo. Os atores retornam ao sotaque tcheco do século XV, enquanto a direção de arte prioriza detalhes que vão de armaduras autênticas a trilhas compostas em instrumentos de época. Essa combinação, segundo Bocan, ajuda o jogador a “sentir o peso” da Boêmia feudal.
Há inclusive espaço para improviso: cenas podem mudar caso Henry esteja bêbado ou ferido, forçando os dubladores a gravar variações de cada fala. O cuidado lembra o empenho de estúdios independentes que misturam gêneros — como o trabalho da equipe de Choppy Cuts, cuja renovação caótica no Steam utiliza personagens de Free Fire para provocar risadas e muita improvisação.
Vale a pena jogar Kingdom Come: Deliverance 2?
Se a sua busca é por um RPG que trate liberdade como pilar, Kingdom Come: Deliverance 2 merece atenção especial. O jogo insiste que escolhas devem importar mais que atributos, e torna cada evolução física ou intelectual em uma conquista genuína.
Ainda faltam semanas para o lançamento em 4 de fevereiro de 2025, mas tudo indica que a Warhorse Studios pretende dobrar a aposta do título original. Com um protagonista sem dons divinos, sistema de consequências permanentes e um mundo disposto a reagir, Deliverance 2 pode reconectar o gênero às raízes do roleplay tradicional.
Para quem se frustra com RPGs que só oferecem menus elaborados e histórias lineares, essa jornada medieval pode ser o respiro que faltava. Resta aguardar para ver se o discurso de Viktor Bocan se traduz em prática quando o jogo chegar às mãos do público.
