School Spirits voltou ao catálogo da Paramount+ em 28 de janeiro e, logo de cara, repaginou a forma de narrar o enigma que ronda o colégio de Split River. A terceira temporada manteve o cerne da trama em Maddie Nears, mas expandiu a investigação para novos cenários e personagens que mexem com a rotina dos vivos — e dos mortos.
A estratégia funciona: ao distribuir o protagonismo entre velhos conhecidos e rostos inéditos, a série evita desgastes e se consolida como uma das produções teen mais inventivas do streaming. Abaixo, detalhamos como cada ator influencia essa virada narrativa e como o time criativo, liderado por Hannah Macpherson, sustenta o clima entre o macabro e o afetuoso.
Peyton List continua no centro, mas com camadas inéditas
Peyton List encara Maddie Nears desde 2023, porém a atriz encontra espaço para surpreender na nova fase. Se nas temporadas anteriores a personagem investigava a própria morte, agora lida com a revelação de que, na verdade, está presa a um limbo que desafia qualquer lógica espiritual. List explora a confusão e, principalmente, a raiva de Maddie com nuances que vão além do simples luto adolescente.
A transição entre vulnerabilidade e sarcasmo é ajudada pela direção de fotografia, que capta closes longos no rosto da atriz. Essa escolha potencializa pequenos gestos — um semicerrar de olhos, um riso contido — e sustenta a tese de que o terror de School Spirits é menos sobre sustos e mais sobre empatia. Vale lembrar que List, revelada em Jessie e Bunk’d, amadureceu diante das câmeras; sua experiência infantil fica evidente no controle de tempo cômico, usado para aliviar a tensão em diálogos carregados de exposição.
Amizades que ultrapassam o plano terreno: Simon, Wally e Charley
Kristian Ventura retorna como Simon Elroy, agora dividindo a mesma condição espectral de Maddie. A partir daí, Ventura expande o arco do melhor amigo para além do apoio moral. O ator cria um Simon inquieto, às vezes impaciente, que precisa reaprender a ajudar quando se torna parte do problema. Os roteiros de Nate e Megan Trinrud dedicam diálogos ágeis ao personagem, permitindo que Ventura brinque com humor autodepreciativo sem perder o peso dramático.
Milo Manheim, por sua vez, mantém Wally Clark como alívio emocional, mas o ex-jogador de futebol dos anos 80 ganha hesitações inesperadas. Manheim, que muitos ainda associam ao musical Zombies, prova que sabe dosar energia: em uma cena no ginásio abandonado, seu sorriso largo desaparece antes de um monólogo sobre sonhos interrompidos. Essa virada silenciosa mostra que o roteiro confia no ator para conduzir momentos introspectivos.
Nick Pugliese fecha o trio com Charley, cuja morte por alergia continua a fornecer comentários sarcásticos sobre mortalidade. Pugliese utiliza pausas longas e olhar sempre curioso, quase de documentarista, servindo de espelho ao público. É através do entusiasmo nerd do personagem que o seriado apresenta regras do universo sobrenatural sem soar enciclopédico.
Os dramas dos vivos: Xavier, Nicole e Claire mantêm os pés no chão
A parte terrena de School Spirits não fica para trás. Spencer MacPherson entrega um Xavier Baxter menos inseguro e mais pragmático. O ator canadense, famoso por Degrassi, adota postura de detetive relutante ao investigar pistas fora da escola. A falta de química amorosa com Maddie não é falha interpretativa; é o roteiro que os separa propositalmente, e MacPherson responde com um Xavier contido, quase culposo, que ainda tenta equilibrar a culpa com o senso de responsabilidade.
Kiara Pichardo interpreta Nicole Herrera, provavelmente o coração humano da série. A atriz trabalha o realismo: gagueja levemente quando mente, suspira fundo antes de decisões difíceis. Essas escolhas tornam crível a garota que, embora coadjuvante, sustenta a investigação no mundo físico. Essa conexão pé no chão lembra debates recentes sobre como grandes produções conseguem emocionar sem depender de megaproduções.
Imagem: Ed Araquel
Do lado das antagonistas ambíguas, Rainbow Wedell volta como Claire Zomer. A atriz australiana equilibra charme e ameaça: cada vez que desvia o olhar, o público questiona suas intenções. O romance clandestino com Xavier — revelado na primeira temporada — repercute agora mais nos silêncios do que nas falas. Wedell lida bem com essa delicadeza e reforça que Claire não é vilã clássica, mas um produto dos segredos que cercam Split River.
O olhar dos bastidores: direção inspirada e roteiros que arriscam
Hannah Macpherson, que divide a função de direção com Brian Dannelly, Max Winkler e Oran Zegman, opta por planos mais abertos em corredores antes claustrofóbicos. Essa abertura visual simboliza a expansão do mistério para além da escola, agora envolvendo um hospital e ruas periféricas da cidade. A paleta de cores mantém tons acinzentados, mas ganha respingos de neon nos flashbacks, contraste que sugere as múltiplas camadas temporais.
Os roteiristas Nate Trinrud, Megan Trinrud, Oliver Goldstick e Nandita Seshadri, por sua vez, abandonam a estrutura “mistério da semana” em favor de arcos contínuos. Assim, cada episódio termina em ponto de virada orgânico, sem ganchos artificiais. O texto, bastante verborrágico durante a investigação, reserva silêncio quando apresenta o professor Sr. Martin (Josh Zuckerman). O ator evolui o mentor para algo próximo de antagonista trágico, reforçando que a série não se acanha em redesenhar papéis.
Essa abordagem ecoa críticas feitas a outras produções de super-herói, como discutido quando Wonder Man encerrou uma temporada em tom de mistério. School Spirits, contudo, evita o “final aberto por obrigação” ao amarrar motivações, mesmo que mantenha perguntas sobre a própria mitologia.
Vale a pena assistir School Spirits temporada 3?
A terceira temporada comprova que a série não depende apenas do enigma inicial. A performance afinada do elenco jovem, somada ao trabalho consistente de direção, sustenta o interesse por mais de oito horas de narrativa. Quem busca suspense com pitadas de drama adolescente encontra um equilíbrio raro: nem leve demais, nem sombrio a ponto de afastar.
Além disso, a expansão de cenários ajuda a quebrar a sensação de teatro filmado que marcou a primeira leva de episódios. As ruas de Split River, agora exploradas, ampliam a escala e dão fôlego a cenas de investigação que exigiam espaço físico.
Em resumo, School Spirits confirma maturidade sem perder a identidade teen. O seriado continua instigante, oferecendo ao público de Blockbuster Online um bom exemplo de como renovar um mistério sem trair personagens queridos.
