O lançamento de Dispatch para Nintendo Switch e Switch 2 chamou atenção não só pela estreia do game em plataformas portáteis, mas pelo retorno de uma polêmica já conhecida: a imposição de censura visual. A partir de 28 de janeiro, jogadores que optarem pelos consoles da Nintendo encontrarão a opção de esconder nudez e gestos obscenos permanentemente ligada — diferentemente de PC e PlayStation 5, onde o filtro podia ser desativado.
Apesar da mudança, o título da AdHoc Studio preserva seu maior trunfo: um elenco de voz que empresta credibilidade às piadas e aos dramas de Robert Robertson III, o Mecha Man. Aaron Paul, Laura Bailey, Matthew Mercer e outros veteranos sustentam a narrativa episódica sem deixar o ritmo cair, fator essencial em uma aventura point-and-click com oito capítulos bem definidos.
Elenco estelar sustenta a narrativa de Dispatch
Se Dispatch funciona como comédia de escritório ambientada no universo de super-heróis, grande parte do mérito recai sobre as interpretações. Aaron Paul, conhecido de Breaking Bad, imprime um tom sarcástico e vulnerável a Mecha Man, o protagonista que precisa reabilitar ex-vilões enquanto reconstrói sua armadura destruída. O ator equilibra frustração e afeto, fazendo com que decisões românticas ou estratégias de batalha soem pessoais.
Do outro lado da linha de atendimento, Laura Bailey (Invisigal) e Matthew Mercer (Blonde Blazer) garantem química suficiente para convencer o jogador a escolher um interesse amoroso ou outro. Bailey aposta numa entrega mais contida, quase melancólica, que contrasta com o entusiasmo do personagem de Mercer. Essa diferença vocal reforça os dilemas de Mecha Man sem recorrer a longos diálogos expositivos.
Participações especiais de criadores de conteúdo, como Jacksepticeye e MoistCr1TiKaL, não chegam a comprometer o profissionalismo do restante do grupo. Pelo contrário: inseridas com parcimônia, acrescentam frescor a diálogos de corredor e aos momentos de humor autorreferencial. É o tipo de participação que se tornou comum em produções modernas — vide as recentes apostas de Choppy Cuts — e, aqui, funciona sem soar forçado.
Direção e roteiro equilibram humor e crítica ao cotidiano de heróis
AdHoc Studio reúne veteranos por trás de Tales from the Borderlands e The Wolf Among Us. Essa bagagem aparece no ritmo ágil dos episódios e na alternância entre escolhas morais leves e consequências marcantes. A narrativa é construída em formato seriado, com cada capítulo terminando em ganchos que mantêm o jogador curioso sobre a próxima missão de resgate ou desabafo na copa do escritório.
A decisão de transformar um clichê de super-herói — a destruição do traje — em motivação para um cargo burocrático é engenhosa. O roteiro trabalha a ideia de “heroísmo de mesa” enquanto critica a lógica corporativa, um tema que ressoa em 2026, ano em que outras franquias buscam expandir suas fórmulas, como sugerem rumores sobre Tomb Raider: Catalyst.
Ao colocar o jogador para gerenciar ex-vilões, o texto permite dilemas éticos curiosos: vale dar uma segunda chance ao antagonista que quase destruiu Los Angeles? Esse tom dúbio faz eco com discussões recentes sobre liberdade de escolha em RPGs, citadas pelo diretor de design de Kingdom Come: Deliverance 2. Em Dispatch, porém, a sátira nunca perde leveza, graças a piadas metalinguísticas e referências a burocracias absurdas.
Chegada ao Switch 2: censura obrigatória e melhorias técnicas
A principal diferença da versão para Switch 2 é a remoção do menu que permitia desligar o filtro de nudez e gestos obscenos. Agora, barras pretas aparecem automaticamente sobre qualquer cena considerada sensível, como o momento íntimo que abre o episódio 4. Áudio e falas também sofreram cortes pontuais, embora a Nintendo tenha autorizado a manutenção de palavrões, controláveis por um slider próprio.
Em entrevista concedida após o lançamento, a AdHoc Studio deixou claro que cada plataforma possui “critérios distintos” de avaliação. Switch 2 exigiu adaptações específicas, mas não impôs cortes de conteúdo narrativo ou episódios completos. No lado técnico, o novo hardware entrega resolução superior e taxa de quadros estável, superando a performance vista no Switch original.
Imagem: Internet
Curiosamente, a política da Nintendo não é uniforme. Títulos como Cyberpunk 2077: Ultimate Edition, lançado no mesmo console, mantêm personalização completa, incluindo nudez integral. A inconsistência remete a casos de 2025, quando o pacote de quadrinhos de Dispatch teve sua ilustração alterada na eShop. Diante disso, fãs questionam o critério utilizado, enquanto especulam sobre futuras estreias, como a possível chegada de Metroid Prime 2 ao serviço online.
Reação do público e impacto nas políticas da Nintendo
Apesar da polêmica, a nota média de 87/100 no OpenCritic não se alterou até o momento da publicação desta matéria. Tanto no PC quanto no PS5, o jogo segue recomendado por 96% dos críticos. No Switch 2, o debate gira mais em torno da liberdade de escolha. Alguns jogadores defendem que a censura quebra a imersão, sobretudo em cenas desenhadas para explorar vulnerabilidades dos personagens.
Para outros, o filtro não afeta a essência de Dispatch, já que o forte está nos diálogos espirituosos e no uso criativo do cenário de escritório. Discussões semelhantes ocorreram quando a Mojang adicionou conteúdo voltado à família em Minecraft, comprovando que decisões de rating influenciam, mas não necessariamente definem, a recepção de um título.
No fim das contas, a versão portátil permite que mais jogadores confiram o trabalho de dublagem sem precisar de um PC robusto ou de um PS5. Em tempos de dez novos jogos gratuitos chegando à Steam — como listamos no Blockbuster Online — a disputa pela atenção do público nunca foi tão intensa. O histórico de AdHoc, aliado à curiosidade gerada pela censura obrigatória, pode garantir visibilidade extra ao game na eShop.
Vale a pena jogar Dispatch no Switch 2?
Mesmo com a imposição de barras pretas, Dispatch mantém seu charme graças a um elenco que entrega nuances raras em aventuras point-and-click. A química entre Aaron Paul e Laura Bailey justifica o investimento narrativo em escolhas românticas, enquanto o humor de escritório dialoga com quem já se sentiu um herói preso atrás de uma mesa.
Para quem valoriza desempenho técnico, o Switch 2 faz bonito: taxas de quadros estáveis e resolução mais alta tornam a experiência prática no modo portátil. O corte de nudez pode incomodar puristas, mas não compromete missões, quebra-cabeças ou o sistema de gestão de heróis, ainda divertido e estratégico.
No balanço geral, Dispatch continua sendo uma aventura recomendável, especialmente a quem aprecia tramas episódicas e dublagens de alto nível. No console da Nintendo, o jogo perde um grau de liberdade, ganha mobilidade e permanece uma vitrine para o talento de roteiristas que sabem dosar emoção, sátira e escolhas que pesam no coração do jogador.
