O universo de Fallout ainda era um nicho para fãs de CRPG quando, em 1998, surgiu a ideia de levá-lo ao cinema. O estúdio Interplay Films, braço da produtora do jogo, chegou a encomendar um tratamento de roteiro a Brent V. Friedman, roteirista com passagem por séries como Star Trek: Enterprise.
O projeto jamais saiu do papel, mas o script, revelado anos depois, mostra uma leitura diferente do que hoje conhecemos do retrofuturismo da franquia. A seguir, destrinchamos os pontos fortes e fracos dessa adaptação perdida, analisamos a visão dos criadores e discutimos se o longa teria sobrevivido ao teste do tempo.
O contexto por trás do filme Fallout que nunca existiu
Interplay havia terminado o primeiro jogo da série com boa recepção de crítica e público. Animados, os executivos criaram a Interplay Films para transformar seus títulos em longas. Além de Fallout, estavam na fila adaptações de Descent e Redneck Rampage. Nenhuma prosperou.
À época, Hollywood colecionava tropeços em filmes baseados em games. Mortal Kombat: A Aniquilação (1997) e Wing Commander (1999) ilustram como orçamentos baixos, efeitos datados e pouca fé no material original podiam afundar uma produção. Contra esse pano de fundo, a aposta num filme Fallout parecia arriscada, mas também visionária.
Roteiro de Brent V. Friedman: ponto de partida promissor
Friedman estruturou a narrativa em torno de Vault 13, ponto de partida icônico para fãs da série. Seu protagonista, chamado apenas de “Herói”, sofria com o tédio do isolamento e encontrava motivação ao descobrir que o chip de purificação de água da comunidade falhara.
A jornada se expandia pelo que restara de Los Angeles, misturando atmosfera de faroeste, desolação radioativa e a ironia típica da franquia. Elementos hoje inseparáveis de Fallout, como G.E.C.K. e Super-Mutantes, já estavam ali. A escolha de um conflito focado em recursos—água pura e sangue não irradiado—dava realismo ao pós-apocalipse, fugindo de vilões megalomaníacos tão comuns na época.
Direção imaginada e escalação de elenco: quem poderia dar vida ao Wasteland?
Sem diretor anexado oficialmente, o projeto circulou em Hollywood como “filme Fallout” enquanto buscava um nome capaz de equilibrar violência, humor negro e comentário social. Cineastas de ação de médio orçamento, como Stephen Norrington (Blade), chegaram a ser especulados em bastidores não confirmados.
Para o elenco, o estúdio estudava rostos carismáticos de produções sci-fi da década. O “tipo Mad Max” descrito no tratamento exigia um ator com presença física e sarcasmo nato; nomes como Michael Biehn e Clancy Brown eram cogitados informalmente por fãs. Já a liderança feminina do grupo de Vault 13 clamava por alguém que transmitisse resiliência e empatia, algo que atrizes como Famke Janssen e Carrie-Anne Moss provariam dominar pouco depois em seus respectivos papéis de destaque.
Imagem: Internet
Por que o filme Fallout naufragou antes das filmagens
Mesmo com um texto considerado pronto para pré-produção, Interplay Films enfrentava dois problemas. O primeiro era dinheiro: estimativas internas falavam em orçamento mínimo de US$ 40 milhões, cifra alta para uma empresa de games de médio porte em 1998. O segundo era confiança do mercado. Distribuidoras temiam abrigar mais um potencial fracasso em uma lista onde adaptações de jogos colecionavam críticas negativas.
Além disso, o tom satírico de Fallout, com violência cartunesca e piadas sobre Guerra Fria, soava difícil de enquadrar na classificação indicativa americana. Ajustes pedidos por possíveis financiadores diluíam o humor ácido que definia a marca. Quando a franquia foi vendida à Bethesda anos depois, qualquer chance de ressuscitar o longa evaporou.
Vale a pena imaginar este filme Fallout nos dias de hoje?
Mesmo sem elenco definido, o roteiro de Friedman mostra atenção ao cerne temático do jogo: a luta humana por sobrevivência e o caos que brota do controle exagerado. Ainda que pudesse sofrer nas mãos de estúdios pouco familiarizados com games, o texto aponta sequências de ação cinematográficas e espaço para performances marcantes, sobretudo na relação entre o Herói idealista e o anti-herói cínico do Wasteland.
Hoje, após o sucesso da série da Amazon, é tentador lamentar o cancelamento. Porém, considerando os tropeços dos anos 90, talvez o engavetamento tenha preservado a marca até que efeitos visuais, orçamento e respeito ao material se alinhassem. Da mesma forma que a nova atualização do PS5 turbina um hardware já sólido, a tecnologia moderna dá ao universo Fallout a chance de brilhar com fidelidade e escala que faltariam em 1998.
Para quem acompanha o Blockbuster Online, o “filme que não foi” vira peça curiosa de arqueologia pop. Serve de lembrete de como timing e contexto definem se uma adaptação vira clássico ou decepção. No fim, resta aos fãs aquele exercício de imaginação: como teria sido assistir a Vault 13 ruir nos cinemas, ao som de algum hit dos anos 50 em meio a explosões nucleares e piadas de humor negro?
