RadCity chegou de mansinho ao Steam, mas logo chamou atenção de quem vive garimpando novidades indies. O projeto da desenvolvedora romena babadokia evoca clássicos como Disco Elysium e Fallout, porém aposta em identidade própria e numa atmosfera cuidadosamente lapidada.
Com pouco mais de 20 minutos de duração, a demo pública já permite sentir o peso desse cenário nuclear decadente, experimentar a movimentação fluida do protagonista e perceber como cada ruína foi colocada ali com propósito. A seguir, destrinchamos os pontos que fazem da obra uma das apostas mais promissoras do gênero para os próximos anos.
Um apocalipse isométrico que chama atenção
O primeiro impacto de RadCity está no visual. A câmera de cima garante visão ampla das ruas esburacadas, mas sem trair a sensação de claustrofobia que define qualquer bom pós-apocalipse. Ao contrário de produções que recorrem a geradores de terreno, cada beco, linha férrea abandonada ou abrigo improvisado foi modelado manualmente.
A decisão de babadokia lembra o cuidado artístico visto na franquia Fallout, mas revestido de melancolia europeia. O estúdio revelou que a cidade-fantasma foi inspirada em regiões industriais da Romênia, o que explica a mistura de prédios soviéticos, muros de tijolo exposto e árvores amareladas que teimam em soltar folhas sobre o asfalto rachado.
E não se trata apenas de cenário estático. Nuvens de poeira radioativa formam bolsões mortais, criaturas mutantes rondam becos e refletores industriais geram sombras que engolem o personagem nas esquinas. Tudo isso comunica narrativa ambiental sem uma linha de diálogo.
Quem já vibrou com o charme retrô de máquinas clássicas de pinball vai reconhecer o mesmo carinho pelo detalhe aqui. É arte que serve de gameplay.
A mecânica de exploração em RadCity
Apesar do roteiro sombrio, a jogabilidade surpreende pela leveza. O personagem ganha aceleração ao saltar, mantém inércia na queda e permite controlar distâncias no ar, algo mais comum em plataformas do que em títulos de sobrevivência. Esse “peso” do corpo abre espaço para atalhos arriscados que economizam tempo ou evitam confrontos diretos.
O núcleo, porém, continua sendo a sobrevivência. O objetivo revelado até agora exige coletar provisões suficientes para sustentar duas pessoas durante 40 dias de viagem de trem. Na demo, essa contagem não está ativa, mas já dá pistas de que o gerenciamento de recursos e o ciclo dia-noite serão pilares da experiência completa.
Cada incursão num prédio abandonado obriga a calcular rotas de entrada e fuga. A verticalidade, amparada por escadas improvisadas e sacadas quebradas, transforma simples buscas por comida em pequenos quebra-cabeças. A tensão lembra a sensação de vagar pelo ermo em obras como Golfo Árabe, outro survival que valoriza escolhas táticas sobre combate frenético.
Embora a demo ainda não mostre construção de abrigos ou craft avançado, a base de movimento e coleta já demonstra refinamento. Se essas mecânicas forem aprofundadas até 2026, RadCity tem chances de se diferenciar num mercado saturado por mundos proceduralmente gerados.
Direção artística e influências dos criadores
Babadokia não é um nome conhecido, mas a estreia revela clara ambição autoral. O time optou por motor interno para ter controle total de iluminação, partículas de poeira e física. Essa escolha explica o desempenho estável, mesmo em máquinas modestas, e o visual que flerta com pintura digital.
As influências de Disco Elysium aparecem mais no ângulo da câmera e na paleta fria do que na estrutura narrativa. Até aqui, não há diálogos extensos, perícias sociais ou escolhas morais profundas. Em vez disso, o game investe na quietude pós-bomba, usando sons metálicos ao longe, vento cortante e estalos de radiação como trilha interativa.
Imagem: Internet
Já a herança de Fallout surge na iconografia nuclear: cartazes desbotados alertam sobre contaminação, portas blindadas enferrujam, vagões de trem carregam placas em alfabeto cirílico. Mesmo assim, falta qualquer resquício de humor ácido à la Vault-Tec; RadCity prefere o tom sóbrio, quase documental.
A direção de arte também ganha pontos pela interface minimalista, que evita poluir a tela. Indicadores de vida, radiação e cansaço aparecem apenas quando realmente importam, liberando espaço para o jogador focar na leitura do ambiente. Essa escolha, comum em narrativas imersivas, reforça a vibe introspectiva do projeto.
O que falta descobrir até o lançamento
O trecho disponível no Steam se encerra antes que o sistema de economia de itens ou a jornada de 40 dias mostrem a que vieram. Ainda não sabemos quantas zonas exploráveis haverá, se haverá companheiros controlados por IA nem como funcionará a progressão de habilidades.
A desenvolvedora promete chegada oficial para o final de 2026, janela que coincide com especulações sobre uma eventual atualização de Red Dead Redemption 2 na nova geração. Ou seja, há tempo para polir conteúdo, expandir narrativas e testar balanceamentos em acesso antecipado.
Outro ponto em aberto é o combate. Na demo, o jogador pode esquivar de criaturas ou usar armas improvisadas, porém sem profundidade em árvore de skills ou modificação de equipamento. A expectativa é que setores industriais mais adiante introduzam desafios que exijam escolhas entre furtividade, agressão ou rotações engenhosas pelo mapa.
Por fim, permanece o mistério sobre multiplayer. Nada indica modos cooperativos, mas a meta de suprir “duas pessoas” para o trem alimenta teorias sobre NPCs aliados ou divisão de tarefas, recurso que poderia adicionar camada dramática à administração de recursos escassos.
Vale a pena jogar a demo de RadCity?
Para quem busca novas experiências no gênero sobrevivência pós-nuclear, RadCity entrega uma amostra curta, porém instigante. O nível de polimento gráfico e a física responsiva já superam muitos projetos em acesso antecipado. Mesmo sem sistemas avançados ativados, a demo cumpre o papel de provar que a atmosfera artesanal é mais do que fachada.
Some a isso a trilha ambiental competente, a identidade visual distinta e a promessa de mecânicas de gestão de suprimentos, e fica claro por que o título ganhou fôlego entre curadores do Steam. Blockbuster Online seguirá acompanhando cada novidade até o lançamento final.
No fim das contas, baixar a versão de teste não custa nada além de uns minutos de download. É tempo suficiente para sentir a estrutura que babadokia está construindo e decidir se você reserva espaço no calendário de 2026 para descobrir como termina essa viagem de trem rumo ao desconhecido.
