É só apertar o play na Netflix para constatar: Seinfeld continua com o ritmo mais feroz da comédia televisiva. Quase três décadas após o último episódio, a criação de Jerry Seinfeld e Larry David ainda impõe um padrão altíssimo de timing, texto e interpretação.
Blockbuster Online revisitou as nove temporadas para entender por que nenhum sitcom moderno conseguiu superar essa obra, observando detalhadamente atuações, escolhas de direção e a engenhosidade dos roteiristas.
Atuações que criaram arquétipos e não envelhecem
Jerry Seinfeld, no papel ligeiramente autobiográfico, conduz o espectador com um humor de observação seco, quase científico. Sua entrega contida funciona como o ponto de equilíbrio para a verborragia que cerca George, Elaine e Kramer. A química se consolida já na segunda temporada, quando o elenco principal domina completamente o palco cômico.
Jason Alexander, como George Costanza, é um estudo sobre a neurose contemporânea. O ator explora microexpressões e gestos milimetricamente calculados, transformando frustrações banais em implosões hilárias. Muitos atores de humor, de Ted Mosby a Michael Scott, devem algo a esse desempenho cheio de tique nervoso.
Julia Louis-Dreyfus, vencedora do Emmy ainda nos anos 1990, oferece uma Elaine Benes de timing impecável, capaz de oscilar do sarcasmo ao desespero em segundos. Ela abriu caminho para personagens femininas caóticas que surgiriam anos depois, como Selina Meyer ou Fleabag.
Por fim, Michael Richards eleva Cosmo Kramer a um evento físico. Entradas de porta, quedas e expressões corporais viraram marca registrada. Mesmo em cenas silenciosas, o ator completa piadas apenas com postura e olhar — recurso raro em comédia televisiva.
Larry David e Jerry Seinfeld: quando a contrariedade vira método
Larry David, showrunner até a sétima temporada, estabeleceu regras próprias: nada de lições morais, personagens que nunca aprendem e um compromisso inabalável com o “nada” como matéria-prima. Sob sua batuta, os episódios possuem densidade típica de drama premium, algo que seria reeditado em produções posteriores, como o tenso Círculo Fechado, ainda que em outro gênero.
Quando David se despede, a série adota tom mais absurdo, mas mantém coerência estrutural. Jerry Seinfeld assume maior controle e dá liberdade para roteiristas explorarem tramas que beiram o surreal — tudo sem que o universo interno perca lógica. É um equilíbrio impressionante, que sustenta a maratona de 180 episódios sem sensação de desgaste.
Imagem: Internet
Roteiros densos em 22 minutos: a engenharia do “nada”
Cada capítulo tem exatos 22 minutos, mas comporta até três linhas narrativas que se entrelaçam num clímax enxuto. A montagem paralela e o recurso de callback — piadas que retornam episódios depois — criam sensação de continuidade digna de seriados dramáticos, como The Wire. A série, aliás, foi pioneira em plantar sementes narrativas que germinam no futuro, artifício essencial no streaming.
Os roteiristas Bruce Eric Kaplan, Greg Daniels e Steve O’Donnell, entre outros, dominam diálogos rápidos e diálogos circulares. A quarta temporada exemplifica essa virtude: a trama metalinguística onde Jerry e George tentam vender uma série sobre “nada” à NBC satiriza o próprio processo de criação e ancora uma temporada inteira em meta-humor brilhante.
Esse mesmo time não teme o humor cruel, vide a morte de Susan na sétima temporada. A coragem de rir da tragédia reforça a marca antissentimental de Seinfeld, elemento que influenciaria It’s Always Sunny in Philadelphia e até episódios de The Office mais sombrios.
Direção e ritmo: o valor da economia cênica
Art Wolff e Tom Cherones dirigem grande parte dos episódios iniciais, mantendo enquadramentos simples, focados em performance. A opção minimalista favorece a observação de manias, respirações e silêncios, imprescindíveis para o humor de situação. David Steinberg e Andy Ackerman, que assumem depois, sofisticam cortes e transições, mas sem polir demais o produto — o “lado B” nova-iorquino continua lá.
O resultado final é uma sitcom que parece feita para binge antes mesmo da existência do termo. Maratonar Seinfeld lembra mergulhar em universo de regras próprias. Assim como a aventura musical Popeye se tornou joia cult graças a Robin Williams apesar do caos de bastidores, Seinfeld converte restrições de cenário em potência criativa.
Vale a pena maratonar em 2024?
Mesmo com centenas de sitcoms lançadas desde 1998, Seinfeld continua a referência. As performances seguem afiadas, os roteiros permanecem atuais e a direção ressalta a fisicalidade dos atores como poucas séries fazem. Para quem busca comédia que respeita a inteligência do público e oferece ritmo ideal para streaming, a resposta é sim: vale apertar o play agora — e, ao final, voltar para o primeiro episódio sem nenhum constrangimento.
