Círculo Fechado chegou ao catálogo da Max em 2023 com todos os ingredientes de uma produção prestigiada: direção premiada, roteirista consagrado e um elenco que transita entre o faroeste moderno e o drama contemporâneo. Mesmo assim, pouca gente ouviu falar da minissérie.
Enquanto títulos mais recentes, como o eletrizante 96 Minutos, dominam as conversas nas redes, a obra de Steven Soderbergh ficou esquecida no feed. Abaixo, destrinchamos as performances, as escolhas técnicas e os motivos que podem ter levado esse suspense a voar baixo no radar do público.
Elenco de peso impulsiona Círculo Fechado
Timothy Olyphant, veterano de séries como Justified, assume o papel do empresário Derek Browne com a mesma rigidez moral que marcou seus xerifes televisivos. O ator encontra uma vulnerabilidade inédita quando o filho do personagem é sequestrado, escapando do arquétipo do “homem de chapéu” para explorar a culpa paterna.
Claire Danes, que deu rosto às crises de ansiedade em Homeland, interpreta Sam Browne. A atriz equilibra fragilidade e frieza numa construção que expõe rachaduras no casamento e no status social do casal. Cada suspiro de Danes parece carregar décadas de privilégios e segredos.
Quem rouba a cena, contudo, é Zazie Beetz. Como a obstinada detetive Mel Harmony, a atriz imprime ritmo às investigações, convertendo diálogos expositivos em trocas cheias de subtexto. O encontro dela com Jim Gaffigan, surpreendente em registro dramático como o chefe Manny Broward, oferece o alívio cômico certo sem quebrar a tensão.
O time ainda conta com Jharrel Jerome, CCH Pounder, Dennis Quaid e Suzanne Savoy. Essa combinação intergeracional cria um mosaico de sotaques, tons e experiências que reforça o tema central: tudo está conectado, do topo do condomínio de luxo às vielas de Little Guyana.
Direção de Steven Soderbergh mantém tensão constante
Soderbergh segue a cartilha que consagrou sua filmografia, abusando de ângulos desalinhados, zooms repentinos e iluminação quase clínica. O resultado é um desconforto visual que espelha a confusão moral dos personagens. A câmera parece sempre espreitar uma verdade incômoda, mas se recusa a entregá-la de mão beijada.
A montagem, assinada com o pseudônimo Mary Ann Bernard, intercala linhas temporais sem perder clareza. Cada corte serve para empurrar a narrativa para frente, mesmo nos momentos de maior contemplação. Um simples close em um olhar vacilante diz mais que páginas de diálogo, reforçando a máxima de que, com Soderbergh, forma e conteúdo caminham lado a lado.
O cuidado com a ambientação também chama atenção. A fotografia captura o luxo estéril de Manhattan e, em seguida, mergulha em becos iluminados apenas por letreiros de mercearias guianenses. Essa dualidade geográfica escancara o abismo social que sustenta o conflito.
Roteiro de Ed Solomon mistura mistério e crítica social
Ed Solomon, co-criador da franquia Bill & Ted, abandona a comédia escancarada e aposta em diálogos econômicos, mas recheados de sobreentendidos. O sequestro do jovem Jared é apenas a superfície. Por baixo, o roteiro maquina a relação entre colonização, desigualdade e o preço do privilégio.
Imagem: Internet
O formato de minissérie favorece a escrita de Solomon. Com seis episódios, o autor ensaia cliffhangers quase semanais, mas reserva tempo para construir personagens secundários, como a família do chef guianense que orquestra o crime. Ao transformar o espectador em cúmplice de cada descoberta, Solomon garante envolvimento emocional, não apenas curiosidade.
A estrutura lembra obras recentes de sequestro, mas refina o trope ao dispensar vilões unidimensionais. Todos carregam alguma razão — distorcida ou não. Essa complexidade ecoa no sucesso de séries de mistério que exploram nuances sociais, tal qual Whistle, ainda que em registro de terror.
Por que a minissérie passou despercebida?
Alguns fatores se combinam para explicar a baixa repercussão. Círculo Fechado estreou em julho de 2023, período em que a greve dos roteiristas ocupava manchetes e bloqueava ações promocionais. A Max, recém-rebatizada, reorganizava seu algoritmo, priorizando franquias consolidadas como Game of Thrones.
Além disso, o marketing preferiu vender a produção como “mais um suspense de sequestro”, sem frisar o olhar decolonial que a distingue. Enquanto Mare of Easttown ganhou endosso de boca a boca, Círculo Fechado acabou ofuscado por lançamentos simultâneos de alto orçamento e pela tendência dos espectadores a procurar narrativas já testadas, como as do universo Sobrenatural.
O resultado foi uma audiência modesta, apesar do pedigree. Para efeitos de comparação, pesquisas internas indicaram números inferiores aos de The Undoing, embora críticas especializadas colocassem o trabalho de Soderbergh no mesmo patamar de excelência.
Vale a pena assistir Círculo Fechado?
Para quem aprecia suspense sólido, performances multifacetadas e uma direção que não subestima a inteligência do público, a resposta é sim. Círculo Fechado entrega uma trama que amarra crime, família e desigualdade sem perder ritmo. É o tipo de joia escondida que o leitor do Blockbuster Online costuma garimpar.
Steven Soderbergh demonstra, mais uma vez, domínio absoluto sobre linguagem audiovisual, enquanto Ed Solomon prova versatilidade ao migrar da ficção científica escrachada para o drama social. Some-se a isso um elenco em estado de graça e tem-se uma experiência curta, mas impactante, digna de maratona em um fim de semana.
