Faz exatamente uma década que Deadpool chegou aos cinemas brasileiros e sacudiu o padrão dos filmes de super-herói. Lançado em 12 de fevereiro de 2016, o longa fez a Marvel — ainda sob a bandeira da 20th Century Fox — abandonar o conforto da classificação PG-13 e mergulhar em sangue, palavrões e piadas nada sutis.
Com orçamento enxuto de US$ 58 milhões, a produção arrecadou US$ 782 milhões no mundo todo e se transformou no maior êxito para maiores de 18 anos da época. Mais do que números, porém, Deadpool redefiniu a conversa sobre liberdade criativa em adaptações de HQ e abriu portas para projetos igualmente ousados, como Logan e, no lado da DC, Coringa.
A ousadia que faltava aos heróis da Marvel
Até 2016, praticamente todos os títulos baseados em personagens da Casa das Ideias buscavam apelo familiar. Blade, lá em 1998, fora a exceção que confirmava a regra. Ao bater o martelo em uma aventura violenta, sarcástica e consciente de si mesma, Deadpool mostrou que também existia público disposto a pagar por algo mais adulto.
Esse risco calculado só aconteceu graças à insistência de Ryan Reynolds. Depois de ver a versão do personagem naufragar em X-Men Origens: Wolverine, o ator passou anos tentando convencer os executivos a bancarem um longa fiel aos quadrinhos. A famosa “fuga de teste” daquele trecho de quatro minutos — que Reynolds confessou ter vazado — virou munição valiosa nas redes e carimbou a aprovação popular que o estúdio precisava.
Ryan Reynolds e elenco: química que sustenta o caos
O rosto por trás da máscara vermelha não apenas estrelou, mas também produziu, lapidou piadas no set e modulou o tom cômico do longa. A performance de Reynolds combina timing impecável, carisma natural e entrega física, resultando em um antihéroi que quebra a quarta parede com desenvoltura semelhante ao icônico humor de Seinfeld.
Morena Baccarin contracena com segurança como Vanessa e injeta doçura num filme repleto de cabeças rolando. Já T.J. Miller empresta sarcasmo extra a Fuinha, enquanto Brianna Hildebrand e Stefan Kapičić formam uma dupla improvável — Míssil Adolescente Megassônico e Colossus — que sublinha o contraste entre inocência juvenil e rigidez moral. A química entre o grupo impede que o roteiro escorregue em apenas um desfile de insultos, sustentando o coração da narrativa.
Direção de Tim Miller: ritmo afiado e violência cartunesca
Estreante em longas, o diretor Tim Miller traz bagagem de animação e efeitos visuais — experiência fundamental para equilibrar gore e comédia pastelão. Cada sequência de ação parece coreografada como um número musical frenético, mas sem sacrificar clareza ou coerência espacial.
Miller também entende quando desacelerar. Os interlúdios românticos de Wade e Vanessa ganham luz quente e enquadramentos mais estáticos, lembrando as passagens emotivas de Peixe Grande, analisadas em profundidade no Blockbuster Online. Essa alternância de climas mantém o público engajado do começo ao fim.
Imagem: Instars
Roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick: piadas metalinguísticas e coração
A dupla de roteiristas assina um texto que dispara referências à cultura pop como metralhadora: de Lanterna Verde a Hugh Jackman, ninguém escapa. O humor autodepreciativo funciona porque nunca perde de vista a jornada emocional de Wade Wilson, homem que troca sarcasmo por vulnerabilidade sempre que se vê diante de Vanessa.
O diálogo espirituoso também transcende a comédia quando aborda temas como tratamento experimental de câncer e aceitação da própria aparência. Dentro do pacote de trocadilhos e violência estilizada, há espaço para falar de autoestima, tornando Deadpool surpreendentemente acessível a quem busca mais do que risadas fáceis.
Vale a pena (re)assistir Deadpool dez anos depois?
Passada uma década, Deadpool continua afiado. O CGI envelheceu bem, em parte porque o design abraça o exagero proposital. Mais importante, as piadas mantêm frescor graças ao uso inteligente de metalinguagem — recurso que foi incorporado a várias franquias posteriores, de quadrinhos a animações como Zootopia 2, sucesso descrito neste artigo.
Para novos espectadores, o filme serve como porta de entrada a produções 18+ que unem violência gráfica e coração. Para quem já viu, a revisita revela camadas que talvez tenham passado batidas no riso inicial, como a crítica à ganância corporativa evidenciada na falta de orçamento para “mais X-Men no casarão”.
Em síntese, Deadpool consolidou carreira, abriu trilha para sequências bilionárias e reforçou que liberdade criativa gera retorno. Não por acaso, a Marvel decidiu manter a classificação indicativa em Deadpool & Wolverine e, assim, honrar o legado de um filme que mudou as regras do jogo.
