Poucas estreias da cena gamer em 2026 geraram tanta discussão quanto Dispatch, a aventura cômica protagonizada por heróis fracassados e vilões sem noção. Lançado nos consoles da Nintendo em 28 de janeiro, o título veio carregado de tarjas pretas, cortes de áudio e outras intervenções que reduziram – mas também distorceram – boa parte do seu humor.
O curioso é que, ao tentar suavizar nudez e gestos ofensivos, a versão para Switch acabou criando piadas involuntárias. A cada “bleep” e tela escurecida, o timing cômico dos dubladores se choca com o vazio visual, gerando um tipo de nonsense que pode arrancar gargalhadas pelo motivo errado. Blockbuster Online analisou a experiência para entender como a censura altera interpretações, ritmo e narrativa.
Elenco de vozes segura as pontas mesmo com cortes bruscos
Dispatch sempre apostou em diálogos rápidos e gags visuais. Com tarjas dominando a tela, o trabalho dos atores de voz se torna ainda mais relevante. Robert Robertson, vivido por Jordan Calloway, preserva a cadência desesperada do herói decadente. Já Invisigal, na interpretação cheia de carisma de Kari Wahlgren, sustenta a comédia física apenas com entonações, já que parte de suas expressões foi coberta por faixas pretas.
A química entre o elenco permanece intacta, mas algumas piadas perdem força: quando Granny desmaia no chão, a dublagem reage a algo que o jogador não vê. O atraso entre a fala e o entendimento visual quebra o fluxo humorístico, transformando a cena em um sketch de teatro do absurdo. Ainda assim, o empenho dos atores evita um desastre completo, lembrando a maneira como o carisma pode segurar roteiros problemáticos, caso de Code Vein 2, criticado por motivos técnicos no PC (confira os detalhes).
Direção e roteiro esbarram em exigências de classificação
O estúdio AdHoc, responsável pela direção geral, precisou readequar o conteúdo para atender à Classificação Indicativa CERO, padrão japonês frequentemente mais rígido em retratos de nudez. Segundo comunicado da equipe, a Nintendo apenas reforçou as normas; coube aos desenvolvedores decidir onde aplicar filtros.
Com isso, cenas essenciais à construção de personagens ficaram truncadas. A sequência onírica que abre o Episódio 4, por exemplo, ganhou “bleeps” que abafam não apenas palavrões, mas nuances emocionais importantes. O texto de Sarah Coen e Marcus Li, elogiado pela mescla de redenção e deboche, perde subtexto quando falas sobre insegurança corporal ficam sem imagem de apoio. Não é a primeira vez que roteiros encaram barreiras de plataforma: jogos como Nioh 3, ao liberar demo simultânea no PS5 e PC (veja impressões), optaram por versões distintas para regiões diferentes.
Humor acidental: quando a tarja vira protagonista
Paradoxalmente, a censura cria momentos cômicos que não existiam na versão original. A perseguição de Lightningstruck à padaria Granny’s Donuts termina com um retângulo gigante cobrindo o traseiro do vilão. A plateia sabe o que deveria estar ali, mas a censura exagerada vira a piada principal. Da mesma forma, o primeiro encontro entre Robert e o nudista Toxic vira um sketch pastelão, pois o quadrado preto ocupa quase metade da tela.
Imagem: GameRant
Essa estética improvisada lembra as gambiarras de comunidade em jogos sandbox; basta lembrar da criatividade de players que construíram uma pista de corrida espacial em No Man’s Sky (saiba como ficou). Em Dispatch, contudo, não há intenção artística: a censura bruta contrasta com a riqueza de cores e animação fluida, gerando estranhamento visual, mas também risadas imediatas.
Impacto na experiência geral e possível revisão
O resultado, para quem joga no Switch, é uma história que ora mantém a coesão dramática, ora se transforma em paródia involuntária. AdHoc informou que negocia com a Nintendo para flexibilizar algumas restrições, mas não há prazo de atualização. No PC e no PlayStation 5, um simples botão liga/desliga resolve o problema.
Enquanto isso, fãs questionam a escolha de lançar mundialmente a mesma build aprovada pela CERO. A discrepância fica mais evidente quando a eShop vende títulos bem mais picantes sem qualquer corte. Ainda assim, a visibilidade do caso impulsionou a discussão sobre diretrizes de plataforma, algo que outras produções, como Highguard em seus testes de modo 5×5 (entenda a estratégia), vêm considerando antes do lançamento.
Vale a pena assistir a Dispatch no Switch?
Se a ideia é acompanhar a trama de redenção de heróis desajustados sem distrações, o Switch não é o melhor palco. As intervenções visuais e sonoras diluem tensão e romance, alterando o ritmo ideal imaginado pelo time de roteiristas. Porém, para quem aprecia humor involuntário e não se importa em rir das próprias limitações técnicas, a versão censurada oferece um espetáculo único – ainda que não intencional.
