Quando a Academia revelou os indicados ao Oscar 2026, poucas categorias geraram tanta discussão quanto a de Melhor Filme. Entre produções autorais e dramas intimistas, o blockbuster F1 apareceu como o “intruso” da lista, levando parte da crítica a torcer o nariz.
O longa dirigido por Joseph Kosinski, responsável por Top Gun: Maverick, traz Brad Pitt e Damson Idris pilotando carros de Fórmula 1 em pistas reais. A seguir, o Blockbuster Online destrincha como as atuações, a direção e o roteiro justificam a presença da obra na maior festa do cinema.
Atuações de Brad Pitt e Damson Idris aceleram a trama
Em F1, Brad Pitt vive Sonny Hayes, piloto veterano que precisa provar ter fôlego para competir com a nova geração. Pitt domina a tela com o carisma habitual, mas aqui seu trabalho exige nuances: a conquista de patrocínios, o desgaste físico e o peso das escolhas passadas aparecem em pequenos gestos, como o ajeitar do macacão antes da largada ou o olhar contido no paddock.
Damson Idris, no papel do novato Joshua Pierce, funciona como contraponto. Enquanto Pitt transita na base da experiência, Idris incorpora a impulsividade típica de um estreante. O embate entre os dois não se resume a quem chega primeiro; é também um choque de filosofias de vida. Esse duelo interpretativo garante a tensão fora das pistas, mantendo o público engajado entre uma volta e outra.
A química se estende ao elenco de apoio. Kerry Condon, como engenheira-chefe, entrega timing cômico e coração, reforçando o subtexto sobre inclusão de mulheres em funções técnicas na categoria. Já Javier Bardem, como o chefe de equipe que precisa equilibrar interesses de patrocinadores e vaidade dos pilotos, oferece humor ácido e autoridade.
Roteiro original dribla clichês e aproxima leigos da Fórmula 1
O argumento de Joseph Kosinski e Ehren Kruger evita o caminho fácil de transformar corridas em meras set pieces. Ao escolher um enredo que apresenta a hierarquia de uma equipe, a dupla detalha desde a escolha dos pneus até a dança dos boxes, traduzindo o universo da Fórmula 1 sem sobrecarregar o espectador com jargões.
A narrativa investe na tensão entre tradição e inovação: Sonny, figura analógica, resiste a simuladores e câmeras nos capacetes, enquanto Joshua abraça telemetry e mídias sociais. Com isso, o roteiro comenta, de maneira orgânica, a transformação do esporte em entretenimento global — tema caro à indústria cinematográfica, que também precisa equilibrar arte e algoritmo.
Além disso, o filme adota estrutura de temporada esportiva, com Grandes Prêmios servindo de marcos dramáticos. Essa escolha confere ritmo constante e justifica o tempo de 156 minutos, sem parecer inflado. Assim, F1 se torna porta de entrada para quem jamais acompanhou uma corrida, ampliando o apelo popular do Oscar — movimento semelhante ao observado com Top Gun: Maverick e que agora ecoa na categoria de atuação, onde a disputa por Melhor Atriz Coadjuvante também ganhou novos holofotes.
Direção de Joseph Kosinski alia imersão e clareza visual
Kosinski já havia sido elogiado pela precisão técnica em Top Gun. Em F1, ele repete a estratégia de gravar dentro de veículos reais. As câmeras compactas, desenvolvidas em parceria com a Sony, foram instaladas no cockpit a centímetros do capacete dos atores. Com isso, cada trepidação do volante e cada mudança de marcha chegam à plateia sem filtros.
Embora a linguagem seja vertiginosa, a montagem preserva a geografia das cenas. O espectador entende quem está passando quem, onde há espaço para ultrapassagem e em que ponto do circuito uma falha pode custar o pódio. Esse equilíbrio entre espetáculo e nitidez visual justifica a indicação a Melhor Filme, mesmo que o longa tenha ficado de fora de categorias como Fotografia.
Imagem: Internet
O diretor também acerta ao alternar o barulho ensurdecedor dos motores com silêncios que antecedem largadas. O som ecoa a pulsação dos personagens, reforçando a ideia de que os carros são extensão do corpo. Esse cuidado formal diferencia F1 de produções que dependem exclusivamente de CGI para criar impacto.
Tecnologia de filmagem redefine padrões de cenas de corrida
Para capturar a sensação de 300 km/h, a equipe criou suportes de fibra de carbono que acomodam lentes grande-angulares sem alterar a aerodinâmica dos carros de Fórmula 2 adaptados para o set. Brad Pitt e Damson Idris passaram por quatro meses de treinamento com pilotos profissionais, prática que reforçou a autenticidade nas curvas e frenagens.
Esse uso de tecnologia prática dialoga com a tradição de Hollywood em renovar gramáticas visuais — movimento parecido com o de James Wan ao recolocar Jogos Mortais mais perto das raízes. Em F1, no entanto, a inovação serve à clareza narrativa, não apenas ao espetáculo vazio.
O resultado é um filme que transforma a pista em personagem. A câmera desliza na reta, mergulha junto com a asa dianteira nas curvas e vibra em cada ponto de frenagem. Essa proximidade ajuda o público a sentir o perigo, tornando plausível a tensão dramática que sustenta a história.
Vale a pena assistir F1?
F1 reúne atuações carismáticas, um roteiro que simplifica a complexidade do automobilismo e uma direção comprometida com realismo visual. O uso de tecnologia prática coloca o espectador dentro do cockpit, gerando experiência rara mesmo em salas equipadas com telas gigantes.
Para quem busca compreender por que a Academia incluiu um blockbuster na principal categoria, o longa oferece resposta direta: a combinação entre alcance popular e inovação técnica, dois pilares que historicamente definem os rumos da indústria. Nesse cenário, ver o filme em tela grande potencializa vibração de motores e detalhes de som, ainda mais quando o público compartilha suspiros e aplausos nas arquibancadas improvisadas da sala.
Sem se limitar a fãs de velocidade, F1 funciona como porta de entrada para novos espectadores no universo da Fórmula 1 e, ao mesmo tempo, reforça que produções de grande orçamento podem, sim, disputar — e merecer — espaço no Oscar.
