Sete anos depois de um lançamento cheio de tropeços, Fallout 76 virou assunto principal numa entrevista recente de Todd Howard. O diretor executivo da Bethesda revelou que nenhum outro título de seu extenso currículo, que inclui sucessos como The Elder Scrolls V: Skyrim e Fallout 4, lhe traz tanta satisfação quanto esse RPG online pós-apocalíptico.
Ao participar do podcast Kinda Funny Gamescast, Howard reconheceu que o jogo “não estreou bem”, mas apontou a complexidade de criar, reformular e manter vivo um mundo persistente como o grande motivo de seu orgulho. A seguir, analisamos a condução do projeto, o roteiro por trás do universo compartilhado e, claro, o resultado dessa jornada para os jogadores.
Direção: Todd Howard mantém o leme firme após a tempestade
Todd Howard carrega a fama de capitão de projetos single-player grandiosos. Em Fallout 76, porém, ele precisou trocar a bússola: o foco passou a ser a convivência online de milhares de jogadores em tempo real, algo inédito para o estúdio até então. O resultado inicial, em 2018, foi problemático: bugs abundantes, ausência de NPCs humanos e polêmicas envolvendo a edição de colecionador mancharam a estreia.
Mesmo assim, Howard bancou a continuidade do jogo. Em suas próprias palavras, “foi ainda mais difícil tirá-lo do buraco do que colocá-lo no mercado”. Essa persistência reflete uma direção que, embora criticada no começo, mostrou capacidade de aprendizado rápido, reinserindo personagens dublados e expandindo eventos sazonais. O compromisso de longo prazo lembra a trajetória de No Man’s Sky, que também renasceu após forte onda de críticas — um paralelo que os leitores do Blockbuster Online vão reconhecer na recente atualização 6.22 do jogo da Hello Games.
Roteiro e construção de mundo: da solidão à presença humana
Na estreia, Fallout 76 apresentou um roteiro quase contemplativo: todos os habitantes haviam deixado a Virgínia Ocidental ou haviam morrido, restando apenas terminais de computador e holofitas para contar as histórias. A proposta não empolgou quem esperava diálogos, escolhas morais e a tradicional ironia social da série.
O ponto de virada veio com a expansão Wastelanders, que adicionou NPCs humanos plenamente dublados, facções rivais e linhas narrativas mais complexas. Esse reforço de roteiro aproximou o online do DNA clássico de Fallout, ao mesmo tempo em que manteve atividades cooperativas e eventos públicos. Hoje, com 24 temporadas lançadas ou em planejamento, o enredo inclui lendas regionais — como o Pé-grande, prometido para março de 2026 — e leva os jogadores a revisitar locais emblemáticos com novas missões, uma evolução que o próprio Howard descreve como “manter o jogo relevante semana após semana”.
Performance vocal: elenco de voz preenche o vazio inicial
Embora Fallout 76 não tenha “atores” no sentido tradicional de um filme, a chegada de personagens controlados pela IA trouxe um trabalho de dublagem digno de nota. Figuras como o vigilante Motoqueiro da Estrada e a carismática comandanta Daguerre injetam personalidade nas linhas de texto, quebrando a sensação de parque temático vazio. O esforço de localizar essas vozes para diversos idiomas substituiu a frieza dos robôs do lançamento por interações cheias de nuances.
Imagem: Internet
Em português, o jogo ganhou dublagem parcial, com menus e legendas localizados e vozes em inglês, estratégia que dialoga com a prática de outros títulos de serviço contínuo, como Roblox e sua enxurrada de experiências baseadas em comunidade — assunto ligado ao nosso guia de códigos para Torne-se um YouTuber. A adição de humor negro, escolhas éticas e novas ramificações de enredo reforçou que roteiristas e diretores de dublagem aprenderam com o feedback.
Tecnologia e suporte ao vivo: a engrenagem que não pode parar
Uma das falas mais reveladoras de Todd Howard na entrevista foi sobre a dificuldade de manter “números grandes” em pleno 2026. Enquanto concorrentes na seara live-service encerram servidores poucos meses após a estreia, Fallout 76 registra picos de popularidade impulsionados, em parte, pela adaptação televisiva produzida pela Prime Video. O crossover de mídias trouxe novos jogadores, e a equipe da Bethesda respondeu com eventos temáticos e recompensas ligadas à série.
Do ponto de vista técnico, o Creation Engine — tradicional motor gráfico do estúdio — recebeu otimizações constantes para lidar com atualizações de conteúdo, correções de exploits e inclusão de recursos solicitados pela comunidade. Cada patch grande vem acompanhado de notas de mudança detalhadas, amenizando a ansiedade dos veteranos. A estratégia lembra a compressão de dados vista em projetos de modding extremos, como o feito que reduziu GTA 5 para 2,5 GB, tema explorado nesta matéria sobre mods.
Vale a pena jogar Fallout 76 em 2026?
Com temporadas regulares, roteiro expandido e dublagem que trouxe vida ao ermo irradiado, Fallout 76 passou de exemplo de lançamento desastroso a case de recuperação. Todd Howard se diz mais orgulhoso dele do que de clássicos imaculados porque, em suas palavras, “foi tão difícil fazê-lo funcionar e mantê-lo relevante”. Se o jogador procura um Fallout compartilhado, cheio de eventos e easter eggs, a versão atual cumpre essa promessa — e, segundo o roadmap interno da Bethesda, há muito mais por vir.
