O suspense gótico Sinners, de Ryan Coogler, ainda nem chegou às salas brasileiras, mas já coleciona recordes de indicações ao Oscar. O longa cimenta o diretor como um dos autores mais influentes da década, misturando vampirismo, crítica social e estética vintage.
Quem saiu impressionado com essa mistura pode encontrar na Netflix outro prato cheio: Eles Clonaram Tyrone. Lançado em 2023 e praticamente ignorado pelo grande público por causa do frenesi “Barbenheimer”, o filme de Juel Taylor compartilha a mesma veia provocativa de Sinners — só que trocando presas de vampiro por clones e controle químico.
A força do elenco: Boyega, Parris e Foxx em sintonia fina
John Boyega assume o papel de Fontaine, traficante de pouca conversa que descobre ter sido copiado em série. O ator trabalha no limite entre o contido e o explosivo; cada silencioso erguer de sobrancelha comunica mais do que longos discursos. Sua composição lembra o minimalismo de Michael B. Jordan em Sinners, provando que a contenção, quando bem dirigida, vale por páginas de roteiro.
Teyonah Parris rouba cena como Yo-Yo, prostituta que mistura sagacidade de detetive noir com timing cômico de sitcom. Nas mãos dela, frases ácidas ganham camadas de raiva genuína, tornando a personagem coração moral da história. Jamie Foxx, produtor executivo e intérprete do cafetão Slick Charles, injeta energia caótica: uma metralhadora de piadas que, curiosamente, intensifica a gravidade da denúncia social.
Direção e roteiro: Juel Taylor brinca de conspiração retrofuturista
Dirigido em estreia solo por Juel Taylor — corroteirista de Creed II e Homem-Formiga & a Vespa: Quantumania — o filme abraça estética blaxploitation dos anos 1970. Paletas neon, trilha funk carregada de baixo e figurinos extravagantes fazem contraste com câmeras que deslizam por corredores úmidos, lembrando a tensão corporativa vista na série Halt and Catch Fire. Essa colisão de épocas cria sensação de realidade fora do tempo, condição perfeita para teorias conspiratórias florescerem.
Taylor assina o roteiro ao lado de Tony Rettenmaier. A dupla dosa humor e denúncia sem perder o fio narrativo: cada piada serve para mascarar, apenas por instantes, o terror de perceber que corpos negros são laboratório vivo de uma elite invisível. A revelação central vem em camadas, espelhando o passo a passo investigativo de Sinners, onde a música gospel oculta rituais de sangue.
Temas em comum: controle social, identidade e resistência
No centro de Eles Clonaram Tyrone está a ideia de comunidade como alvo. O “Projeto” oculto no subsolo do bairro Glen vive do mesmo combustível que move o falso messias de Sinners: retirar autonomia de pessoas marginalizadas em nome de uma suposta ordem. Em Coogler, o vilão oferece salvação espiritual; em Taylor, uma paz química feita de frango frito, xampu relaxante e beats de hip-hop calibrados.
Imagem: Internet
Ambas as obras funcionam, portanto, como parábolas sobre vício e distração. Ao colocar experimentos clandestinos atrás de vitrines de conveniência, Taylor reforça que a dominação pode ser tão discreta quanto uma promoção de supermercado. É o que faz o público questionar se a ameaça é realmente futurista ou se já habita nosso presente — discussão que ecoa no suspense Rebel Ridge, outro título da plataforma que investiga violência sistêmica.
Fotografia, trilha e ritmo: atmosfera que gruda na retina
Mesmo filmado majoritariamente à noite, o longa evita o filtro azulado recorrente em thrillers. O diretor de fotografia Ken Seng aposta em interiores cor de mostarda, verdes surrados e roxos vibrantes que ressaltam a textura da pele e transformam becos em palcos de psicodelia urbana. É impossível não lembrar dos vitrais vermelhos que banham a igreja de Sinners, reforçando como luz e cor podem sugerir opressão religiosa ou científica.
A trilha de Desmond Murray e Pierre Charles costura funk, soul e sintetizadores, ditando pulso irregular que acelera nos embates e desacelera em momentos de complô. Já a montagem prefere long takes a cortes frenéticos, estratégia que amplifica o pavor quando os heróis vagam por corredores clínicos onde clones maturam em tubos de ensaio.
Vale a pena assistir Eles Clonaram Tyrone?
Para quem gostou de Sinners, a resposta é um sonoro sim. Eles Clonaram Tyrone não apenas compartilha assuntos — controle de minorias, estética retrô, humor sombrio — como também exibe elenco em estado de graça e direção segura de Juel Taylor. O longa está disponível na Netflix com 119 minutos que passam voando, oferecendo um sci-fi satírico que preenche o vazio deixado pela ausência de notícias concretas sobre uma possível continuação de Sinners.
Blockbuster Online recomenda acompanhar esse suspense antes que ele vire, novamente, uma joia esquecida pelo algoritmo. Afinal, poucas obras conseguem transformar complô governamental em entretenimento pop sem comprometer a seriedade da mensagem.
