“Wonder Man”, nova aposta da Marvel no Disney+, encerrou sua primeira temporada com um movimento narrativo que mexeu diretamente com quem cresceu lendo os quadrinhos do herói. A escolha de reescrever o passado do irmão de Simon Williams, sem recorrer ao caminho tradicional do vilão Ceifador, rendeu debates acalorados sobre fidelidade à fonte e abriu espaço para atuações surpreendentes.
Ao focar na relação familiar de Simon, o showrunner Andrew Guest e os diretores James Ponsoldt e Stella Meghie optam por climaxes mais intimistas, deixando de lado a pirotecnia habitual do MCU. Esse caminho coloca os intérpretes no centro da história – e é aí que o elenco brilha. A seguir, analisamos como cada peça criativa ajudou a construir um final tão comentado.
Yahya Abdul-Mateen II carrega Wonder Man nas costas com humor e vulnerabilidade
Desde o piloto, Yahya Abdul-Mateen II apresenta um Simon Williams idealista, dono de um senso de humor ácido, mas constantemente à beira do colapso. O ator equilibra carisma de estrela de cinema e insegurança de novato em Hollywood, criando um herói distinto dentro do MCU. Na reta final, a sequência em que Simon perde o controle de seus poderes e destrói a cozinha da mãe adiciona camadas ao personagem – especialmente porque o roteiro evita diálogos expositivos e deixa a câmera revelar a frustração no olhar do protagonista.
O momento funciona porque Abdul-Mateen entende o peso dramático sem jamais abandonar o timing cômico. Em “Kathy Friedman”, episódio sete, ele transita da paranoia à emoção genuína diante do apoio inesperado do irmão. A série, que já havia sido analisada aqui no Blockbuster Online por reacender a faísca de Guerra Civil no MCU, confirma a versatilidade do ator ao entregar outro clímax sensível – desta vez, dentro de uma sala de cinema.
Demetrius Grosse traz profundidade a Eric Williams e dribla expectativas
A surpresa maior recai sobre Demetrius Grosse. Conhecido por papéis de apoio em dramas policiais, o ator assume Eric Williams, personagem que nos quadrinhos adota o codinome Ceifador e se torna um assassino em série. Na TV, porém, Grosse trabalha com nuances: a postura inicialmente arrogante, os comentários condescendentes e a distância emocional sugerem perigo, mas escondem um homem cheio de ressentimentos não resolvidos.
A direção de Ponsoldt explora esse suspense silencioso. Ao convidar o espectador a desconfiar de cada sorriso de Eric, a série planta pistas de que o vilão clássico pode emergir a qualquer momento. Entretanto, no oitavo episódio, o roteiro de Andrew Guest e Madeline Walter vira a chave e apresenta o irmão como a plateia mais orgulhosa do sucesso de Simon. Grosse administra a transição sem cair no melodrama, encerrando a temporada com lágrimas contidas que dizem mais do que qualquer monólogo.
Roteiro aposta em tensão familiar e desvia do cânone sem perder emoção
O mérito maior de “Wonder Man” talvez esteja na forma como engana o público mais experiente. Quem conhece os quadrinhos espera o Ceifador; quem chega agora vê apenas uma rixa entre irmãos. O texto de Guest, Paul Welsh e Zeke Nicholson cultiva esse duplo olhar, brincando com as expectativas de forma semelhante ao que Steven Soderbergh fez em “Círculo Fechado”, quando subverteu os clichês do suspense para explorar personagens.
Imagem: Internet
Essa escolha narrativa também destaca o talento de Stella Meghie na condução de episódios centrados em diálogos. Em “O Barril de Roupas na Festa”, ela estabelece a dinâmica de poder entre os dois irmãos: Eric provoca, Simon recua, a tensão cresce. Porém, o clímax não é um duelo explosivo, e sim um gesto de reconciliação silencioso. A decisão reflete o cuidado em manter a história coesa com o tom levemente cômico, mas ainda emotivo, que permeia toda a série.
Direção e design sonoro reforçam o drama sobre super-poderes
Embora “Wonder Man” ostente cenas de ação pontuais, como quando Simon voa descontrolado pelo bairro, o destaque técnico recai sobre a forma como Ponsoldt e Meghie usam a trilha de Amanda Jones e a fotografia de Javier Grobet para sublinhar a intimidade. A luz suave que banha o rosto de Eric na sala de cinema, por exemplo, ecoa o passado sombrio do Ceifador nos quadrinhos, sem explicitar a referência. Já o design sonoro amplifica ruídos de respiração e batimentos cardíacos durante as crises de ansiedade de Simon, transformando o super-poder em metáfora da pressão psicológica.
Essa abordagem se alinha à tendência de narrativas mais pé-no-chão dentro do MCU, algo que séries como “Ms. Marvel” e “Cavaleiro da Lua” já vinham sugerindo. A diferença é que “Wonder Man” coloca a indústria do entretenimento como pano de fundo, criando paralelos com os bastidores de Hollywood. Nesse ponto, as participações de coadjuvantes como Arian Moayed (Agente Cleary) ajudam a ampliar o escopo, mesmo que o foco permaneça na dupla de irmãos.
Vale a pena assistir Wonder Man?
Para quem procura um espetáculo de super-heroísmo tradicional, talvez a temporada pareça contida. Entretanto, o trabalho de elenco, a ousadia em reescrever um vilão icônico e o olhar afiado de Andrew Guest sobre fama e família entregam um drama sólido, cheio de personalidade. Ao final, “Wonder Man” se destaca como experiência singular dentro do catálogo do Disney+, mantendo a essência do personagem enquanto surpreende até o fã mais atento aos quadrinhos.
