A franquia Pokémon caminha para três décadas no topo das bilheterias dos games, mas boa parte de seu passado permanece inacessível para quem não guardou um portátil antigo na gaveta. Enquanto remakes modernos surgem esporadicamente, versões originais de clássicos como Emerald ou Black 2 estão à mercê de leilões online que chegam a custar um mês de aluguel.
Essa desconexão entre demanda nostálgica e oferta oficial reacende um debate: por que a Game Freak e a Nintendo ainda não portaram o catálogo completo à eShop do Switch, seguindo o modelo já adotado para Super NES e Mega Drive? A ausência pesa no bolso dos fãs e cria um impasse sobre preservação de jogos.
Preços que assustam mais que batalha contra Mewtwo
O ciclo é sempre o mesmo. Cartuchos deixam de ser produzidos, lojas fecham o estoque e, poucos anos depois, cópias usadas inflam no mercado de segunda mão. Hoje, um Pokémon Crystal lacrado passa fácil dos R$ 1.300, valor que supera o de um Nintendo Switch Lite novo nas lojas brasileiras. A situação fica ainda mais crítica nos títulos do Nintendo DS: Black 2 e White 2 encostam nos R$ 2.000 em marketplaces internacionais.
Para quem cresceu na geração GBA ou DS, revisitar a jornada em Unova ou Hoenn virou luxo. E não é exagero; basta comparar com o serviço Nintendo Switch Online, que libera mais de 100 jogos 8-bit e 16-bit por uma assinatura anual de preço simbólico. O contraste evidencia um vazio estratégico no portfólio da Game Freak.
Remake não substitui a experiência original
Remakes têm méritos, mas nem sempre replicam todo o conteúdo. Em 2014, Omega Ruby e Alpha Sapphire deixaram de fora a famosa Battle Frontier, ponto alto de Emerald. Décadas antes, FireRed e LeafGreen já simplificavam mecânicas de Red e Green, e o mesmo ocorreu quando Brilliant Diamond e Shining Pearl ignoraram recursos de Platinum. O resultado é uma nostalgia parcial que não satisfaz os fãs puristas.
Portar a ROM original, sem retoques, poderia conviver lado a lado com remakes. A coexistência já ocorre em outras franquias; basta observar The Legend of Zelda, que mantém, no Switch, tanto versões emuladas quanto recriações repaginadas. A lógica de mercado mostra que um produto não necessariamente canibaliza o outro.
Switch é vitrine ideal para o passado de Pokémon
O hardware híbrido alcançou mais de 139 milhões de unidades vendidas mundo afora, segundo relatórios recentes da Nintendo. Disponibilizar clássicos do Game Boy, Game Boy Advance e DS na plataforma ampliaria a base de jogadores e traria receita quase passiva. O modelo de negócios está pronto: a empresa já provou com NES e SNES que assinaturas mensais movimentam a retro-biblioteca.
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Além disso, jogos antigos emulam sem dores no sistema atual; a mesma tecnologia que permite que fãs criem OVNIs em Tears of the Kingdom daria conta de sprites 2D de 2006 com folga. A limitação, portanto, é menos técnica e mais estratégica.
Nostalgia: combustível que continua rendendo
A paixão pela franquia alcança segmentos variados. Há quem colecione pelúcias, quem invista em cartas raras e até quem monte fliperamas temáticos, como a máquina física de Pokémon Pinball lançada pela Stern. Dentro desse ecossistema, relançar ROMs originais representaria mais uma forma de monetizar o carinho do público, sem custos de desenvolvimento comparáveis a um título inédito.
De quebra, o movimento reforçaria a preservação de obras que ajudaram a moldar o RPG portátil. Em um momento em que conversas sobre atualização gráfica realista, como ocorre com The Witcher 4, dominam o noticiário, celebrar o 2D pixelado de Pokémon também tem valor histórico.
Vale a pena esperar pelos ports?
Para novos jogadores, o dilema é claro: pagar valores inflacionados por cartuchos antigos ou aguardar, na esperança de que a Nintendo abra o cofre digital. Quem já possui a coleção física pode sentir menos impacto, mas mesmo colecionadores gostariam de alternar entre portátil e modo TV sem trocar de console.
No fim, a decisão recai sobre a Game Freak. Enquanto a desenvolvedora não define um cronograma de relançamento, o mercado cinza continuará ditando preços. Resta aos fãs torcer para que o aniversário de 30 anos inspire a empresa a olhar para trás. O público do Blockbuster Online certamente aprovaria.
