Logo depois do sucesso de Stagecoach, John Ford e John Wayne voltaram a trabalhar juntos em um projeto que, na época, passou quase despercebido pelo público. Lançado em 1940, The Long Voyage Home ficou marcado mais pela bilheteria tímida do que pelo reconhecimento imediato.
Décadas depois, o mesmo longa-metragem ganhou status de joia escondida: não só recebeu várias indicações ao Oscar em sua estreia, como hoje ostenta a cobiçada nota máxima no Rotten Tomatoes. A seguir, o BlockBuster Online recapitula os principais pontos dessa produção, que prova que nem todo filme aclamado precisa estourar nas bilheterias para entrar na história.
A dupla Ford-Wayne retoma parceria logo após Stagecoach
Em 1939, Stagecoach redefiniu o faroeste e catapultou John Wayne à condição de astro. Apenas um ano depois, o diretor John Ford convocou o ator para The Long Voyage Home, drama ambientado em um cargueiro britânico nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial. Era a segunda de 14 colaborações entre os dois, mas, diferentemente do faroeste que os consagrou, o novo projeto apostava em tensão psicológica e clima marítimo.
Wayne interpreta Ole Olsen, um jovem sueco a bordo do navio. Apesar do nome de peso no cartaz, o verdadeiro protagonista é Driscoll, vivido por Thomas Mitchell. O roteiro, adaptado de peças de Eugene O’Neill, se concentra nas relações da tripulação enquanto todos sonham em chegar em segurança em suas terras natais.
Enredo de The Long Voyage Home valoriza o drama humano
Longe dos tiroteios de Stagecoach, The Long Voyage Home constrói sua narrativa em torno da espera e da incerteza. A bordo, marinheiros de origens distintas enfrentam rumores de submarinos inimigos, tempestades e, principalmente, seus próprios fantasmas pessoais.
Essa abordagem menos explosiva pode ter frustrado quem buscava outra aventura no Velho Oeste, mas entregou profundidade aos personagens. Ao lado de Wayne e Mitchell, Ian Hunter e Barry Fitzgerald completam o núcleo principal, reforçando a sensação de um microcosmo prestes a ruir a qualquer instante.
Um desafio de atuação que tirou John Wayne da zona de conforto
Segundo o biógrafo Scott Eyman, Wayne viu em Ole um papel que exigia bem mais sutileza do que seus cowboys habituais. Para soar convincente, o ator procurou treinamento específico de sotaque sueco, algo incomum em sua carreira até então.
Imagem: Internet
Dialeto sueco exigiu preparação cuidadosa
Eyman explica que, nos anos 1930, Wayne adotava a estratégia de minimizar a própria veia dramática, apresentando-se quase como “não ator”. Ole, no entanto, é descrito como ingênuo, bondoso e sensível, características que pediam uma interpretação emocionalmente mais rica. O resultado foi uma performance que foge do estereótipo durão que marcaria a filmografia futura do astro.
Boa recepção da crítica não evitou fracasso comercial
Apesar dos elogios à direção de fotografia — Alan Le May faz uso expressivo de sombras e névoa —, The Long Voyage Home não atraiu público suficiente para recuperar seus custos. Ainda assim, especialistas enalteceram a atmosfera sombria criada por Ford e o elenco coeso.
A reação positiva se reflete hoje na nota de 100% no Rotten Tomatoes, índice que coloca o drama entre os títulos mais bem avaliados do diretor. É um reconhecimento tardio que reforça a ideia de que alguns filmes amadurecem com o tempo e ganham valor à medida que novos públicos os descobrem.
Indicações ao Oscar e legado perdurável
Na temporada de prêmios de 1941, The Long Voyage Home concorreu em seis categorias, incluindo Melhor Filme. A estatueta não veio, mas a lembrança da academia mostra que, já na estreia, havia quem reconhecesse a qualidade do projeto.
Hoje, cinéfilos que revisitarem The Long Voyage Home encontrarão um drama de guerra intimista, com John Wayne em papel atípico e John Ford exercendo pleno domínio da linguagem cinematográfica. Para quem pesquisa obras pouco comentadas do período ou pretende ampliar o repertório de clássicos, trata-se de parada obrigatória.
