Quando Attack on Titan explodiu no mundo todo, muitos estúdios buscaram repetir a mistura de ação brutal e tensão política que consagrou a obra de Hajime Isayama. Entre as tentativas, poucas chegaram tão perto quanto Kabaneri da Fortaleza de Ferro, anime original de 2016 que ainda passa despercebido por parte do público.
Com direção de Tetsurō Araki, o mesmo que orquestrou as primeiras temporadas de Attack on Titan, a série une horror steampunk, sequências de ação coreografadas e personagens intensos, criando um espetáculo que vale ser revisitado no décimo aniversário de lançamento.
A visão de Tetsurō Araki e o roteiro de ação incessante
Responsável por traduzir o caos dos Titãs em cenas de tirar o fôlego, Araki reutiliza em Kabaneri da Fortaleza de Ferro a linguagem cinematográfica que o consagrou: câmeras em movimento constante, cortes rápidos e close-ups carregados de urgência. O resultado é um ritmo alucinante que mantém a narrativa sempre à beira do colapso, tal qual os trilhos que conduzem os personagens.
O roteiro, assinado por Ichirō Ōkouchi, não economiza na sensação de cerco. Humanidade confinada, monstros à espreita e uma locomotiva blindada servem de palco para discussões sobre medo, autoridade e sacrifício. A premissa pode soar familiar aos fãs de Attack on Titan, mas a ambientação industrial e a ameaça dos Kabane adicionam identidade própria ao projeto.
Performances vocais que sustentam o drama
Na dublagem original japonesa, Tasuku Hatanaka empresta a Ikoma um tom inicialmente inflamado de raiva que evolui para a angústia de quem se vê entre a vida humana e a infecção dos Kabane. Já Sayaka Senbongi, como a guerreira Mumei, dosa fragilidade e brutalidade em igual medida, oferecendo profundidade a uma personagem que poderia ficar restrita ao arquétipo de “super-soldado”.
A versão em inglês, comandada por Roger Craig Smith (Ikoma) e Robbie Daymond (Takumi), mantém a intensidade, ampliando o alcance da série no Ocidente. Smith, conhecido pelo ritmo frenético de personagens como o ouriço Sonic, aplica variações de timbre que destacam o desespero crescente de Ikoma. Daymond, por sua vez, humaniza o amigo que serve de ponto de equilíbrio emocional. Essa entrega do elenco lembra a força dramática destacada em The Pitt, onde a qualidade das atuações carrega a narrativa.
Construção de mundo: entre o steampunk e o horror corporal
Enquanto Attack on Titan abraça estética medieval, Kabaneri da Fortaleza de Ferro aposta em ferrovias, caldeiras a vapor e armas improvisadas. A engenharia rudimentar reflete um mundo que avançou tecnologicamente apenas o bastante para prolongar sua própria ruína. Esse contraste visual foi potencializado pela equipe de arte do Wit Studio, que combina tons sépia, faíscas de metal e labaredas para evocar perigo constante.
Imagem: Hannah Diffey
Os Kabane — mortos-vivos com corações envoltos por ligas metálicas — proporcionam momentos de horror corporal que rivalizam com a brutalidade dos Titãs. A fotografia ressalta ossos expostos e músculos rasgados sem perder o senso de grandiosidade épica. Essas escolhas artísticas lembram o impacto que franquias como O Exterminador do Futuro geraram ao mesclar tecnologia e terror em cenários pós-apocalípticos.
Por que a série não alcançou o mesmo status de Attack on Titan?
Apesar da recepção positiva aos primeiros episódios, a trama de Kabaneri da Fortaleza de Ferro encurta subtramas políticas que poderiam aprofundar a hierarquia tirânica das estações. O arco final, mais focado em espetáculo, deixa questões sociais em segundo plano, diferentemente de Attack on Titan, que ampliou seu escopo geopolítico ao longo das temporadas.
Outro ponto de discussão é o desenvolvimento desigual de coadjuvantes. Personagens cativantes, como o samurai Kurusu ou a nobre Ayame, recebem menos espaço do que merecem. Ainda assim, o anime oferece momentos catárticos suficientes para manter debate entre entusiastas, similar ao resgate recente de produções subestimadas como Varsity Blues, cujo valor só foi reconhecido com o tempo.
Vale a pena assistir Kabaneri da Fortaleza de Ferro?
Para quem busca adrenalina, visual impecável e atuações cheias de intensidade, Kabaneri da Fortaleza de Ferro continua sendo uma das produções mais eficientes da década passada. A série não revolucionou o gênero como Attack on Titan, mas entrega set pieces memoráveis e um protagonista dilacerado entre humanidade e monstruosidade. Em 12 episódios, constitui um pacote enxuto que merece nova chance — especialmente para leitores do Blockbuster Online que apreciam narrativas de sobrevivência carregadas de emoção.
