Quando Prime Video lançou Reacher, a força física de Alan Ritchson e o formato de caso-por-temporada criaram um fenômeno imediato. Agora, a Netflix responde com O Agente Noturno, cuja terceira leva de episódios já chegou ao catálogo e, pela primeira vez, abraça totalmente o esquema antológico que tornou o rival tão popular.
Os novos capítulos mantêm apenas Peter Sutherland na linha de frente e trocam todos os demais nomes, algo refletido nas avaliações: a temporada despontou com 100% de aprovação dos críticos e 85% do público no Rotten Tomatoes, superando as marcas anteriores da própria série. A seguir, analisamos como roteiro, direção e elenco se alinharam para transformar o thriller em candidato a novo vício dos assinantes.
Roteiristas assumem o formato antológico e enxugam a trama
O criador Shawn Ryan, que roteirizou diversos episódios, resolveu abandonar as amarras da primeira temporada — inspirada no livro único de Matthew Quirk — e cortar a continuidade romântica entre Peter e Rose. A ausência de Luciane Buchanan abre espaço para uma narrativa independente, com início, meio e fim bem definidos, sem penduricalhos para o próximo ano.
O resultado é um roteiro mais enxuto, que não exige lembrança detalhada dos eventos passados. A estratégia reflete a lógica testada por Reacher, cujo material de origem — 29 romances de Lee Child — é naturalmente episódico. A decisão corajosa de Ryan equilibra conspirações políticas, ação e investigações de forma clara, evitando a sobrecarga de subtramas que atrapalhou a segunda leva, avaliada em apenas 39% pelo público.
Gabriel Basso sustenta o protagonista e divide holofotes com novos rostos
Com a saída de Buchanan, Gabriel Basso carrega a série nos ombros. O ator investe em nuances: o agente Peter Sutherland continua cerebral, mas evidencia exaustão física e moral após dois anos caçando traidores dentro do governo. O trabalho corporal — ombros tensos, olhar desconfiado — convence quando a câmera fecha em seu rosto durante interrogatórios improvisados.
O frescor, porém, vem do elenco inédito que cerca Basso. Destaque para a analista de inteligência vivida por uma atriz que mistura sarcasmo e vulnerabilidade, gerando química imediata com o protagonista. Dessa vez, o roteiro garante tempo de tela equilibrado; cada novo personagem tem passado, motivação e momento de brilho, algo que faltou aos coadjuvantes da temporada anterior.
Vale notar que a estratégia lembra o que Reacher faz com coadjuvantes como Frances Neagley. A escolha reforça o apelo de antologias de ação e retoma um sabor clássico já visto em franquias cinematográficas — basta recordar como 007 trocava aliados e vilões a cada filme. Essa comparação ecoa entre fãs, ainda mais após rumores de Alan Ritchson herdar a franquia O Exterminador do Futuro.
Direção imprime ritmo cinematográfico sem sacrificar personagens
A realização visual também subiu de patamar. Diferentes cineastas assumem blocos de episódios, mas todos seguem uma mesma cartilha: planos mais abertos para deixar a ação respirar, uso moderado de shaky cam e montagem que privilegia continuidade geográfica. Isso torna perseguições compreensíveis e evita o festival de cortes que dominou parte da televisão recente.
Imagem: Internet
O orçamento, tradicionalmente menor que o de longas, é bem aplicado. Explosões e tiroteios são pontuais, servindo à narrativa em vez de substituírem desenvolvimento dramático. Quando a temporada exige exposição, os diretores apostam em diálogos rápidos, guardando informação essencial para o espectador sem interromper o suspense. O tom lembra a tensão contida de produções como Monarch: Legado de Monstros, cuja direção afiada já comentamos em análise recente no Blockbuster Online.
Por que a fórmula de Reacher se encaixa tão bem em O Agente Noturno
Adotar temporadas autossuficientes facilita a vida de quem maratona: não há necessidade de recapitulações intermináveis nem de apontar anotações para lembrar quem era aliado ou traidor. Em tempos de hiatos longos entre anos de produção, esse modelo reduz barreiras de entrada e estimula novos espectadores a conferirem episódios em ordem solta.
Além disso, o fenômeno reforça a tendência de ação episódica que dominou o cinema dos anos 1990 e retorna pela TV. Enquanto o Universo Cinematográfico Marvel aposta em sagas interligadas — sob críticas de roteiros irregulares, como detalhado na reflexão sobre a Fase 5 da Marvel — séries como O Agente Noturno mostram que a simplicidade ainda conquista público quando bem executada.
Os números comprovam: a média geral no Rotten Tomatoes saltou para 80% entre críticos e 59% do público, mas o recorte da terceira temporada chega a impressionantes 100% de aprovação especializada. A Netflix não divulga audiência minuto a minuto, porém a atração segue no Top 10 global desde a estreia, sinal de boca-a-boca positivo.
Vale a pena maratonar a nova temporada?
Para quem busca um thriller de ação com doses controladas de espionagem e reviravoltas, O Agente Noturno atinge maturidade na terceira temporada. A performance segura de Gabriel Basso, somada ao elenco renovado, garante frescor sem perder identidade. O roteiro de Shawn Ryan prova que desligar a trama principal e recomeçar do zero pode ser revigorante.
O investimento em direção caprichada eleva a experiência ao nível cinematográfico, ainda que o foco permaneça nos personagens. Ao abraçar o formato antológico de Reacher, a Netflix não apenas encontra um substituto à altura, mas também sinaliza como séries de ação podem evoluir dentro do streaming.
