O catálogo da Netflix recebeu, nos últimos dias, cinco produções originais que cabem em uma única madrugada de sofá. São projetos curtos, mas com propostas bastante diferentes: do documentário esportivo à animação artesanal, passando por três thrillers de tensão crescente.
Blockbuster Online mergulhou nesses lançamentos para avaliar o desempenho do elenco, as escolhas de direção e o texto de cada obra. Abaixo, detalhamos por que “Glitter & Gold”, “Samuel”, “Cash Queens”, “Unfamiliar” e “Salvador” merecem — ou não — sua atenção imediata.
Glitter & Gold: Patinação no Gelo mira o ouro, mas quem brilha é a câmera
Lançada em 1.º de fevereiro, a minissérie documental de três capítulos acompanha a preparação de patinadores que sonham com as Olimpíadas de Inverno de 2026. A direção de Amira Chen alterna enquadramentos amplos das arenas geladas com closes quase claustrofóbicos, captando suor, respiração presa e o tremor dos músculos.
Como não há atores, o carisma depende dos próprios atletas. A estratégia de focar em figuras no auge da pressão funciona: o espectador sente cada salto triplo como se fosse o último. A montagem, assinada por Kenji Matsuda, costura treinos e dramas pessoais sem recorrer ao sensacionalismo.
Mesmo quem jamais calçou um patim entende, em minutos, o peso de um erro na pista. A trilha eletrônica, discreta, ajuda a manter o pulso narrativo, mas é a fotografia que traduz o título: o gelo reflete luzes douradas enquanto o desejo de medalha cintila nos olhos dos competidores.
Samuel: animação autoral que cabe no intervalo do almoço
Com 21 episódios de quatro minutos, “Samuel” soma 84 minutos — menos que muitos longas. A criadora e roteirista Émilie Tronche desenhou todos os quadros à mão, adotando um estilo aquarelado que ecoa livros infantis da década de 1960.
A trama acompanha um garoto descobrindo amizade, medo e perda. A voz de Pierre Maillard, dublador do protagonista, entrega nuances improváveis em diálogos curtíssimos. Cada frase parece carregada de subtexto, mérito também do texto minimalista de Tronche.
A direção usa silêncio como ferramenta dramática: em vários trechos, ouvimos apenas o vento ou o ranger da bicicleta. Esse respiro convida o público a preencher lacunas emocionais, fórmula que lembra a sutileza de “Sem Cauda para Contar”, recente k-drama da plataforma que também aposta em delicadeza.
Cash Queens: assalto, neon e uma maternidade nada idealizada
Produzida pelo alemão Jonas Reuter e dirigida pela dupla Nora Klein & Sofia Beck, “Cash Queens” recorre a oito episódios ágeis para narrar a jornada de Elena, mãe solo que monta uma quadrilha feminina. O heist tem aroma vintage, mas a estética neon traz frescor visual e ecoa filmes como “Baby Driver”.
A atriz espanhola Marta Llorente assume o papel principal com energia elétrica. Ela convence tanto no desespero doméstico quanto na frieza com a pistola em punho. O elenco de apoio, composto por Yasmin Al Khalifa, Roman Herzog e Suki Tanaka, sustenta cenas de conflito interno com química impecável.
Imagem: Internet
Embora a série se apoie em clichês do gênero, o roteiro de Dieter Voss injeta comentários sociais sobre desigualdade salarial sem soar panfletário. A fotografia de Tomás Eder privilegia tons púrpura e verdes ácidos, criando atmosferas que lembram os contrastes futuristas analisados em “Fallout – Temporada 2” no universo pós-apocalíptico da Amazon.
Unfamiliar: espionagem doméstica com ritmo de thriller
Lançada em seis capítulos, a produção britânica mostra um casal de ex-agentes que agora administra um refúgio para espiões aposentados. O texto de Lena O’Connor equilibra ação e drama familiar, explorando culpa, segredos e a dificuldade de criar uma filha em meio a ameaças.
Claire Foy e Sterling K. Brown formam o casal protagonista. A troca de olhares entre os dois vale mais que qualquer sequência de tiros. A direção de episódios alternados por Susanne Bier e David Leitch imprime identidade dupla: Bier foca tensão psicológica, Leitch investe em coreografias de luta de tirar o fôlego.
O uso de câmera na mão durante invasões noturnas aproxima o espectador do perigo. Em contraste, cenas diurnas abraçam tons suaves, reforçando a ideia de vida dupla. Essa alternância de estilo lembra discussões sobre identidade vistas em “Wonder Man” e a sombra da Guerra Civil no MCU, tópico aprofundado em outra análise do portal.
Salvador: mergulho na extrema-direita com atuação visceral
A série espanhola de oito episódios chegou em 6 de fevereiro. Dirigida por Jorge Medrano, a trama segue Salvador Aguirre, pai que infiltra um grupo neonazista para resgatar a filha. O roteiro de Paloma Ríos recusa maniqueísmos fáceis, colocando o protagonista em zona cinzenta constante.
Antonio de la Vega, no papel-título, entrega uma performance que mistura desespero, fúria e ternura. Sua transformação física — cabeça raspada e expressão fria — choca ainda mais quando confrontada com cenas de lembrança paterna. O antagonista Erik, vivido por Lukas Müller, não permite caricaturas; seus discursos assustam pela plausibilidade.
A fotografia granosa e a paleta dessaturada remetem a thrillers europeus como “Marshland”. A ausência quase completa de trilha em momentos cruciais amplia o desconforto. O resultado final pode agradar quem procura tensão moral parecida com a de “Resident Evil Requiem”, curta que redefiniu expectativa de fãs ao respeitar sua mitologia.
Vale a pena reservar a madrugada?
Para quem busca variedade em poucas horas, as cinco séries oferecem experiências complementares. “Glitter & Gold” satisfaz curiosos por esportes, “Samuel” serve como pausa sensível, “Cash Queens” entrega adrenalina estilosa, “Unfamiliar” alia ação e drama familiar, enquanto “Salvador” mergulha em dilema ético perturbador. Juntas somam 38 episódios — e cabem em um único fim de semana sem esforço.
