Lançado em 1946 e já em domínio público, O Estranho segue acessível em serviços gratuitos como YouTube, Prime Video e Tubi, oferecendo um mergulho sem custo em um dos maiores exemplares do cinema noir.
Dirigido, coescrito e protagonizado por Orson Welles, o longa ostenta 97% de aprovação no Rotten Tomatoes, foi indicado ao Oscar de Melhor História Original e ainda reúne astros do calibre de Edward G. Robinson e Loretta Young. Abaixo, veja como o trio sustenta a narrativa sombria que marcou o gênero e por que vale separar 95 minutos para essa experiência.
Trama de gato e rato em um Estados Unidos desconfiado no pós-guerra
Ambientado em uma pacata cidade de Connecticut logo após a Segunda Guerra Mundial, O Estranho apresenta Franz Kindler, nazista foragido que assume a identidade do respeitado professor Charles Rankin. Welles constrói um suspense de ritmo constante ao mostrar como a rotina idílica do personagem é corroída pela chegada do agente Wilson, interpretado por Edward G. Robinson.
A investigação de Wilson, que precisa descobrir quem é o criminoso infiltrado, cria tensão crescente. Cada pista aproximando o detetive de Kindler também afasta o protagonista do sonho de normalidade, desencadeando atos desesperados. O roteiro explora a paranoia do período, quando fantasmas do conflito mundial ainda eram recentes, e utiliza elementos clássicos do noir — sombras marcadas, diálogos cortantes e ambiguidade moral.
Orson Welles assume o centro do palco com uma atuação inquietante
Quando decidiu atuar e dirigir simultaneamente, Welles corria o risco de carregar o filme nas costas. O resultado, porém, confirma a fama conquistada em Cidadão Kane. Seu Franz Kindler alterna charme professoral e explosões de violência com a naturalidade de quem muda de acento. A câmera, posicionada em ângulos agudos, enfatiza a dualidade: ora aproxima o público do suposto intelectual, ora o afasta revelando um homem capaz de tudo para proteger o disfarce.
Para o leitor do Blockbuster Online, chama atenção como Welles aproveita iluminação expressionista, rua enfeitada por galhos retorcidos e relógios que anunciam a passagem inexorável do tempo. Esses recursos visuais reforçam a espiral de culpa do protagonista, evidenciando a habilidade do diretor em traduzir motivações internas em imagens externas.
Edward G. Robinson e Loretta Young equilibram o jogo
Robinson incorpora o agente Wilson como um investigador metódico, um contraponto à teatralidade de Welles. O ator dispensa gestos amplos; prefere silêncios e olhares que denunciam cálculos mentais. Ao exibir essa força do elenco, o filme impede que a narrativa se transforme em monólogo do vilão.
Imagem: Internet
Já Loretta Young interpreta Mary Longstreet, noiva de Kindler, assumindo papel decisivo quando percebe as rachaduras na fachada do futuro marido. Young evita a caricatura de “donzela enganada” e entrega sutileza, principalmente em cenas que a põem diante de Robinson. O trio estabelece dinâmica de suspeita mútua: cada fala é um teste, cada gesto pode denunciar a verdade.
Roteiro, fotografia e ritmo: o noir em estado puro
Assinado por Anthony Veiller, o texto equilibra exposições necessárias e diálogos mordazes. Não há respiro que pareça gratuito; os 95 minutos correm como cronômetro de bomba-relógio. Essa precisão lembra produções modernas que apostam em antagonistas bem delineados, a exemplo de obras que aprofundam seu vilão mais icônico para sustentar a tensão.
Na fotografia de Russell Metty, luz e sombra se entrelaçam como dedos apertando a garganta do protagonista. Sequências na torre do relógio usam contra-plongées que antecipam o desfecho trágico. É um estilo que influenciaria futuras narrativas sombrias, inclusive produções que, décadas depois, comprovariam que personagens moralmente ambíguos podem render grandes bilheterias, como se viu quando heróis para maiores ganharam espaço.
Vale a pena assistir a O Estranho hoje?
Mesmo após quase oito décadas, O Estranho permanece vigoroso graças à química do elenco principal, à direção segura de Welles e ao subtexto sobre crimes que jamais encontram perdão. A disponibilidade gratuita facilita o acesso a quem deseja conhecer — ou revisitar — um clássico fundamental do noir.
