Em meio a um 2020 turbulento, diversos longas adiaram suas estreias, mas o calendário de premiações seguiu firme. Quando o Oscar 2021 revelou seus indicados, a lista trouxe nomes fortes como Viola Davis, Carey Mulligan e o vencedor Anthony Hopkins. Ainda assim, um pequeno filme independente, “Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre”, merecia lugar de destaque.
Dirigido por Eliza Hittman e ancorado por uma estreia impactante de Sidney Flanigan, o longa fez barulho na crítica – alcançou 99 % no Rotten Tomatoes – porém não conseguiu a visibilidade necessária entre os votantes da Academia. A seguir, analisamos por que a produção merecia mais atenção.
O drama contundente de “Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre”
Lançado em 13 de março de 2020, o filme acompanha Autumn Callahan, adolescente de 17 anos que descobre a gravidez e precisa viajar da Pensilvânia a Nova York para realizar um aborto sem autorização dos pais. A jornada, tão simples quanto dolorosa, ecoa temas de autonomia e maturidade em cada cena.
Hittman opta por uma narrativa seca, próxima do realismo documental. Não há trilha sonora manipuladora nem grandes explosões dramáticas; o suspense surge do cotidiano – passagens de ônibus, silêncios desconfortáveis, olhares rápidos de desconhecidos. A câmera, quase sempre na mão, cola no rosto das protagonistas para captar detalhes mínimos: um suspiro contido, o tremor de uma palavra engolida.
A tensão lembra o clima claustrofóbico que Mike Flanagan imprimiu em seus trabalhos de terror, como aponta material recente sobre a retomada de O Nevoeiro. Aqui, porém, o medo não vem de monstros, mas da rigidez social que ronda a decisão de Autumn.
Sidney Flanigan e a força de um debut inesquecível
Em sua primeira experiência como atriz, Sidney Flanigan entrega uma performance que parece ter décadas de maturação. A jovem interpreta Autumn com olhar introspectivo, voz baixa e poucas palavras, mas cada microexpressão comunica estados complexos: vergonha, raiva, fragilidade e determinação.
O momento-chave ocorre na clínica, quando uma conselheira questiona a garota sobre experiências de abuso. Para cada pergunta, ela deve responder “nunca”, “raramente”, “às vezes” ou “sempre”. A câmera fixa no rosto de Flanigan e o espectador acompanha a maré de emoções atravessando seus olhos. Não há trilha, não há cortes. Apenas o trabalho minucioso de uma atriz construindo camadas de dor diante do público.
Comparações são inevitáveis. A intensidade lembra a entrega que Paul Giamatti promete levar a Star Trek: Starfleet Academy, mas Flanigan alcança o feito logo na primeira aparição no cinema. Ignorar esse desempenho na categoria de Melhor Atriz soa tão injusto quanto surpreendente.
Eliza Hittman: direção que transforma silêncio em discurso político
Responsável também pelo roteiro, Eliza Hittman cria diálogos econômicos e cotidianos, confiando que seus enquadramentos contem a história. A diretora dedica tempo a gestos que muitos cineastas cortariam: o jeito como Autumn segura a mão da amiga Skylar (Talia Ryder), o esforço para conseguir dinheiro em um metrô lotado, a espera interminável em corredores anônimos.
Imagem: Internet
Essa atenção ao detalhe transforma o longa em comentário social contundente. Sem recorrer a discursos inflamados, Hittman mostra como burocracia, desigualdade de renda e vigilância sobre o corpo feminino impactam a vida de uma adolescente. O resultado lembra obras que mesclam investigativo e drama, como a série Absentia, ao expor sistemas que falham com os mais vulneráveis.
O trabalho de câmera de Hélène Louvart, colaboradora habitual de Hittman, intensifica a imersão. Tons frios destacam a impessoalidade de grandes cidades, enquanto luzes fluorescentes reforçam a sensação de vigilância constante. Tudo conspira para que o espectador divida a angústia de Autumn em tempo real.
Como o Oscar 2021 deixou o filme passar despercebido
Em 2021, a disputa por Melhor Atriz reuniu Frances McDormand, Carey Mulligan, Andra Day, Viola Davis e Vanessa Kirby. É inegável que o grupo era forte, mas a ausência de Sidney Flanigan demonstra como campanhas robustas de estúdios ainda determinam visibilidade nas premiações. Produções independentes, como “Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre”, contam com orçamentos menores para divulgar seus talentos.
Além da protagonista, roteiristas e críticos apostavam que Hittman poderia figurar em Melhor Direção ou Melhor Roteiro Original. No entanto, a cineasta acabou lembrada apenas em premiações menores, como o Independent Spirit Awards, onde venceu em ambas as categorias. Para muitos analistas, o fato de o longa ter estreado pouco antes dos fechamentos de cinema prejudicou o “boca a boca” entre votantes – situação que não afetou tanto títulos lançados via streaming.
A situação repete um padrão histórico. Em temporadas recentes, vimos outros artistas de alto nível serem preteridos, cenário que levou o site Blockbuster Online a acompanhar de perto campanhas futuras para identificar tendências e possíveis injustiças.
Vale a pena assistir “Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” hoje?
Mesmo sem a chancela do Oscar, o longa segue atual e necessário. A narrativa crua, livre de maniqueísmos, convida o público a refletir sobre saúde reprodutiva, autonomia e amizade feminina. A interpretação de Sidney Flanigan mantém frescor raro, provando que grandes atuações não dependem de estúdios poderosos nem de campanhas milionárias.
Para quem busca cinema de impacto com ritmo contido, diálogos precisos e direção segura, “Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” é escolha certeira. Trata-se de obra que permanece na memória, ainda mais quando lembramos que, há poucos anos, a Academia perdeu a chance de reconhecer uma das performances mais honestas da década.
