Quando Tim Burton lançou Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas em 2003, poucos imaginavam que o longa passaria ileso ao teste do tempo. Duas décadas depois, a aventura familiar continua a emocionar tanto quem descobre o filme agora quanto quem volta a ele em busca de novas camadas.
Baseado no livro de Daniel Wallace, o drama fantástico soma 76 % de aprovação no Rotten Tomatoes e vem colecionando fãs nas plataformas de streaming. Nesta análise, o Blockbuster Online relembra como as atuações, a direção e o roteiro mantêm o brilho dessa obra que foge do padrão sombrio do cineasta.
Por que Peixe Grande continua tão atual
Embora Tim Burton seja lembrado por universos góticos como Os Fantasmas se Divertem e Sweeney Todd, Peixe Grande ocupa um espaço diferente em sua filmografia. A narrativa acompanha Will Bloom (Billy Crudup), jornalista que tenta desvendar as histórias mirabolantes contadas pelo pai, Edward (interpretado por Ewan McGregor na juventude e Albert Finney na velhice). A jornada entre realidade e fantasia trata de temas universais: reconciliação familiar, construção de memórias e a eterna dúvida entre fato e mito.
A relevância do enredo cresce justamente porque, em algum momento, todo espectador se vê diante das mesmas questões. A abordagem delicada sobre envelhecer, perder entes queridos e entender as imperfeições de quem amamos faz o longa parecer “novo” em cada revisão. Assim como o suspense de Steven Soderbergh redescoberto anos após a estreia, Peixe Grande mostra que certos filmes amadurecem junto com o público.
Atuações que sustentam a fantasia
Ewan McGregor entrega uma performance solar como o jovem Edward Bloom. Seu carisma natural convence o público a aceitar gigantes amigáveis, bruxas que revelam o futuro e até um circo comandado por Danny DeVito. O ator alterna inocência e coragem em cena, criando um protagonista que abraça o absurdo sem soar artificial.
Na outra ponta da linha do tempo, Albert Finney dá profundidade ao Edward idoso. O veterano transita entre o bom humor e a fragilidade de quem sente a morte se aproximar, fazendo com que cada relato fantasioso carregue urgência emocional. A química entre Finney e Billy Crudup, sempre tenso ao rebater as fábulas do pai, torna crível o conflito central.
Vale destacar ainda Jessica Lange como Sandra, esposa devotada que funciona como bússola moral do herói, e Helena Bonham Carter em papel duplo – bruxa e amor de juventude – reforçando o elo entre realidade e imaginação. Sem esse elenco afinado, as metáforas espalhadas pelo roteiro provavelmente soariam vazias.
Direção e roteiro: Tim Burton fora da zona de conforto
Com 125 minutos de duração e classificação indicativa PG-13, Peixe Grande surge como o projeto mais caloroso de Burton. A fotografia saturada de Philippe Rousselot abandona a paleta sombria habitual do cineasta para compor cenários de conto de fadas inspirados no sul dos Estados Unidos dos anos 1940 e 1950.
Imagem: Nasser Berzane
O roteiro de John August, fiel ao livro de Daniel Wallace, acerta ao organizar as histórias de Edward como se fossem capítulos de um grande mito pessoal. Essa estrutura permite que Burton transite entre gêneros – romance, musical, aventura – sem perder coesão. A cena em que Edward cruza um campo de narcisos para pedir Sandra em casamento exemplifica a harmonia entre texto e direção: visual exuberante a serviço de um gesto simples de amor.
Há, inclusive, paralelos com tendências atuais do cinema de fantasia, como em Sobrenatural e outras franquias que expandem mitologias. Burton, porém, evita a tentação de explicar tudo e aposta na ambiguidade, tornando o espectador cúmplice da magia.
A estética que transforma metáforas em imagens
Se as palavras de Edward conduzem o enredo, o design de produção de Rich Heinrichs traduz metáforas em objetos palpáveis. A cidade ideal Spectre, por exemplo, surge como comunidade isolada onde ninguém usa sapatos – símbolo de um lugar onde o tempo não avança. Já o circo liderado por Danny DeVito converte a incerteza da juventude em espetáculo noturno, colorido e levemente assustador.
Complementando esses elementos, a trilha de Danny Elfman adiciona camadas de sentimento sem sobrecarregar a narrativa. O compositor aposta em temas suaves, quase lullabies, que contrastam com a grandiosidade dos cenários. Resultado: cada sequência parece um capítulo ilustrado de livro infantil, mas com emoção adulta.
Esse cuidado visual faz o título permanecer fresco em 2024, mesmo diante de produções de altíssimo orçamento. Ao revê-lo no catálogo do Prime Video ou da Apple TV, o público se surpreende com a ausência de efeitos datados. A conjunção entre cenários práticos, animação tradicional e CGI discreto garante longevidade estética semelhante à observada no thriller taiwanês 96 Minutos, que recentemente chegou ao Top 10 da Netflix.
Vale a pena assistir Peixe Grande em 2024?
Para quem busca um filme de fantasia capaz de emocionar sem recorrer ao cinismo, a resposta é sim. Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas reúne atuações envolventes, roteiro inteligente e direção inspirada, entregando 125 minutos de puro escapismo – mas com o pé fincado nas relações humanas. Disponível em streaming, o longa permanece um convite irresistível a olhar para nossos próprios mitos familiares e, talvez, reinventá-los.
