Lançado em 1980, o filme Popeye desembarcou nos cinemas sob uma avalanche de críticas negativas e histórias escandalosas de bastidores. Quatro décadas depois, a produção dirigida por Robert Altman ressurge como cult, impulsionada principalmente pelo carisma explosivo de Robin Williams e pela química certeira com Shelley Duvall.
Entre cronogramas estourados, chuvas incessantes em Malta e latas de filme que transportavam mais do que negativos, a aventura musical do marinheiro fortão prova que, às vezes, o caos é capaz de parir pérolas inesperadas. O Blockbuster Online revisita essa epopeia para entender como um set conturbado resultou em um longa que ainda hoje conquista novos fãs.
Um set digno de lenda: madeira importada, chuva e discussões intermináveis
Paramount e Disney uniram forças para erguer Vila Salgada, o vilarejo pesqueiro que serve de palco para a trama. A inexistência de madeira adequada em Malta obrigou a produção a importar toneladas de tábuas, encarecendo tudo e atrasando o cronograma em dois meses.
Enquanto o designer Wolf Kroeger martelava cada pranchão, a equipe técnica lutava contra a chuva que insistia em transformar o estaleiro em lamaçal. Os atrasos alimentaram tensão entre produtor Robert Evans, o roteirista Jules Feiffer e o próprio Altman, famoso por incentivar improvisos e sobrepor diálogos. O cenário lembra a instabilidade de produções como Círculo Fechado, outro caso emblemático de set turbulento que, no fim, entregou cinema de alto nível.
Robert Altman leva o realismo ao extremo e esbarra no universo cartunesco
Conhecido por obras realistas como Nashville e M*A*S*H, Altman aplicou a mesma lente naturalista a Popeye. Cores sóbrias, câmera com zoom longo e diálogos que se atropelam criam contraste curioso com o universo colorido dos quadrinhos de E. C. Segar.
A estratégia gera momentos estranhamente autênticos, porém, por vezes, conflita com a leveza que o público infantil esperava de uma comédia Disney. A batalha contra o polvo no ato final expõe essas fissuras: efeitos limitados, pouca luz e edição confusa. A sensação é de que Altman buscava refazer McCabe & Mrs. Miller com um marinheiro que ama espinafre, um tom tão inusitado quanto o de outras fábulas realistas, caso do poético Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas.
Robin Williams e Shelley Duvall: química que salva qualquer tempestade
Se a estética de Altman gera divisões, o elenco principal coloca quase todo mundo no mesmo barco. Em seu primeiro papel de destaque no cinema, Williams abraça os cacoetes de Popeye: murmúrios indecifráveis, riso debochado e gestual exagerado. O ator ainda exibe impressionante trabalho vocal, reproduzindo o sotaque arrastado do marinheiro sem perder clareza.
Imagem: Internet
Na outra ponta, Duvall surge como Olive Oyl em uma escalação que beira o óbvio: alturas esguia, expressão assustada e voz aguda combinam com a personagem. O encontro dos dois funciona não só como motor cômico, mas também emocional, especialmente quando Popeye assume a guarda do bebê Gugu. A dupla reforça a tese de que uma boa parceria em cena supera limitações técnicas e orçamentárias.
Músicas de Harry Nilsson e design de produção transformam falhas em estilo
A trilha original de Harry Nilsson entrega faixas que grudam na cabeça, como He Needs Me e I’m Popeye the Sailor Man. As canções, muitas vezes filmadas em plano-sequência, integram elenco e cenário, reforçando o senso comunitário de Sweethaven.
Já o design de produção, repleto de barcos enferrujados, trapiches tortos e casinhas desalinhadas, cria um realismo fantástico que flerta com o expressionismo. A madeira úmida e a pintura descascada transformam a vila em protagonista silenciosa, algo difícil de replicar nos estúdios atuais.
Vale a pena assistir a Popeye hoje?
Para quem busca conhecer o primeiro grande papel de Robin Williams no cinema, Popeye é parada obrigatória. Apesar do ritmo irregular, o longa oferece humor físico afiado, números musicais contagiantes e uma aula de como atores carismáticos podem resgatar filmes problemáticos.
Além disso, o contraste entre a direção realista de Altman e o universo cartunesco rende experiência singular, distante do molde dos blockbusters contemporâneos. Curiosos por produções caóticas que viram cult certamente encontrarão diversão – e até alguma inspiração – na jornada desengonçada do marinheiro que só precisa de uma lata de espinafre para fazer história.
