Quando se pensa em longas de terror que atravessam gerações, A Morte do Demônio figura entre as poucas franquias que conseguem se reinventar sem perder a essência. Depois do sucesso sanguinolento de A Morte do Demônio (2013) e de A Morte do Demônio: A Ascensão (2023), o universo criado por Sam Raimi engrena com dois projetos quase simultâneos: Evil Dead Burn, previsto para 24 de julho de 2026, e Evil Dead Wrath, que já está em filmagens.
Essa estratégia, rara em séries de horror de grande estúdio, reforça o modelo de antologia adotado desde 2013: cada filme é autônomo, mas respeita as regras do Necronomicon e dos Deadites. O resultado é liberdade criativa para cineastas em ascensão e a expectativa de performances que fujam do lugar-comum. O Blockbuster Online analisa o que esperar dessa nova fase.
Antologia garante liberdade total de tom e cenário
O ponto de virada da franquia aconteceu quando os roteiros deixaram de depender da cronologia de Ash Williams. Sem a necessidade de costurar pontas entre um capítulo e outro, cada produção de A Morte do Demônio passou a explorar contextos únicos. A Ascensão, por exemplo, trocou a cabana isolada por um arranha-céu claustrofóbico em Los Angeles e, no processo, entregou um estudo de personagem sobre maternidade e culpa.
Com Evil Dead Burn e Evil Dead Wrath mantendo essa lógica, nada impede que os Deadites assombrem um cruzeiro, uma escola ou um retiro de luxo. Essa elasticidade narrativa evita a estagnação que acometeu outras sagas de terror – bastando lembrar de franquias que, após um punhado de continuações, acabaram presas às próprias regras. A aposta na antologia, portanto, funciona como vitamina de longevidade.
Diretores e roteiristas de sangue novo injetam frescor
Sébastien Vaniček, celebrado pelo tenso terror francês Vermin (lançado no Brasil como Infested), assume a direção de Evil Dead Burn ao lado do roteirista Florent Bernard. Vaniček mostrou talento ao transformar um apartamento comum em arena de horror aracnídeo; agora terá orçamento maior para criar possessões demoníacas à altura do legado de Raimi.
Já Evil Dead Wrath ficará sob comando de Francis Galluppi, que chamou atenção com o thriller policial The Last Stop in Yuma County. Será apenas seu segundo longa; a aposta de Raimi em novatos repete o movimento que deu certo com Fede Álvarez (hoje à frente de Alien: Romulus) e Lee Cronin. Para o público, isso significa olhares autorais distintos em rápida sucessão, modelo semelhante ao que séries antológicas como Black Mirror utilizam para surpreender episódio após episódio.
Atuações esperadas: elenco jovem encara desafio físico e emocional
Embora detalhes da trama de Evil Dead Burn permaneçam em sigilo, parte do elenco já foi confirmada. Souheila Yacoub, vista em Clímax, lidera o time ao lado de Hunter Doohan, Luciane Buchanan e Tandi Wright. Todos chegam sem a bagagem de estrelas reconhecidas, algo que costuma funcionar na franquia: a ausência de “rostos famosos” amplifica o senso de vulnerabilidade dos personagens.
Imagem: Internet
O histórico recente mostra que A Morte do Demônio valoriza atuações físicas. Lily Sullivan e Alyssa Sutherland, em A Ascensão, alternaram fragilidade e ferocidade com precisão quase cirúrgica. A tendência é que Yacoub e companhia recebam o mesmo tipo de exigência: gritos, maquiagem pesada, contorções corporais e, claro, litros de sangue cenográfico. Se repetirem o nível de entrega visto na saga, podem até seguir o caminho de colegas que, após protagonizarem terror de destaque, migraram para blockbusters – caso de Noah Wyle, que retornou ao centro do drama semanal em O Poço.
Em Evil Dead Wrath, ainda sem casting divulgado, a principal dúvida é se Galluppi apostará em um protagonista carismático ou num grupo diversificado. A opção por elenco enxuto, como em The Last Stop in Yuma County, pode intensificar a sensação de cerco, velha conhecida do público fã de Necronomicons. Se a escalação repetir o padrão de Burn, teremos mais um laboratório para jovens talentos exibirem fôlego dramático.
Cronograma apertado testa fôlego da franquia de terror
Entre A Ascensão e Burn haverá intervalo de apenas três anos, o menor desde o reboot de 2013. O fato de Wrath já estar rodando antes mesmo de Burn chegar aos cinemas indica confiança do estúdio no formato. Ritmo similar foi adotado por sagas como Reacher, que inspirou a construção de tensão em Rebel Ridge, e provou que o público atual lida bem com lançamentos mais frequentes quando a proposta não depende de continuidade estrita.
O desafio é equilibrar quantidade e qualidade. Parte da crítica questiona se três anos bastam para lapidar roteiros complexos dentro do terror sobrenatural. Ainda assim, a experiência de Cronin mostra que tempo curto não necessariamente compromete o resultado: A Ascensão foi escrita, filmada e finalizada em prazo semelhante e superou expectativas de bilheteria e nota de público.
Vale a pena ficar de olho?
Com diretores promissores, elenco disposto e total liberdade de ambientação, A Morte do Demônio mantém viva a chance de surpreender a cada nova possessão demoníaca. Quem acompanha cinema de gênero sabe que a combinação de sangue fresco atrás e diante das câmeras costuma render momentos memoráveis. Para fãs de sustos e para quem procura estudar narrativas antológicas bem-sucedidas, os próximos dois filmes merecem lugar na lista de estreias obrigatórias.
