A Netflix volta a movimentar o tabuleiro com Rainha do Xadrez, longa documental que mergulha na vida da grande mestre húngara Judit Polgár. Previsto para 6 de fevereiro de 2026, o filme busca repetir – e, em certos aspectos, superar – o fascínio popular despertado por O Gambito da Rainha em 2020.
Em 93 minutos, a produção combina imagens de arquivo, entrevistas atuais e reconstruções discretas para traçar o percurso da enxadrista que, aos 15 anos, já desafiava lendas do jogo. A seguir, analisamos direção, roteiro e impacto cultural da obra, apontando por que ela pode se tornar a nova obsessão dos assinantes.
Dos arquivos à tela: como Rainha do Xadrez reconstrói a lenda de Judit Polgár
O material bruto sobre Judit Polgár impressiona: partidas históricas contra Garry Kasparov, coletivas de imprensa nos anos 1990 e cenas domésticas filmadas pelo próprio pai, László. Rainha do Xadrez organiza essa avalanche de registros em uma narrativa cronológica clara, que vai da infância em Budapeste à aposentadoria em 2014.
Essas filmagens raras permitem que o espectador acompanhe, quase em tempo real, a pressão familiar para transformar a jovem em exemplo vivo da teoria de que “gênio se constrói”. Ao ver Polgár crescendo diante das câmeras, a audiência entende a grandiosidade das marcas que ela quebrou e, ao mesmo tempo, o peso psicológico carregado por trás de cada vitória.
Direção de Rory Kennedy garante ritmo ágil e emoção genuína
Conhecida por abordar temas sociais em seus projetos anteriores, Rory Kennedy recorre a cortes rápidos e trilha minimalista para manter a tensão, mesmo quando o assunto é um jogo silencioso. O uso habilidoso de gráficos animados pontua lances-chave das partidas, recurso que também havia funcionado no suspense hospitalar de The Pitt, onde ações discretas ganham impacto cinematográfico.
O roteiro, assinado por Mark Bailey e Keven McAlester, evita hagiografia. O trio de criadores expõe controvérsias – como a acusação de treinamento exaustivo imposto pelo pai – sem comprometer a admiração pela atleta. Tal equilíbrio faz diferença: há espaço para celebração, mas também para a reflexão sobre métodos educativos extremos.
Comparações inevitáveis com O Gambito da Rainha elevam o debate
A minissérie de ficção estrelada por Anya Taylor-Joy popularizou o xadrez entre neófitos. Rainha do Xadrez, por sua vez, mostra a batalha real travada por uma mulher contra a elite masculina do esporte. Os paralelos saltam aos olhos: rivalidades com soviéticos, pressão midiática e a busca incessante pela perfeição.
Entretanto, a principal semelhança não está no tabuleiro, mas na construção dramática. Assim como Beth Harmon, Polgár encontra no jogo tanto salvação quanto ruína potencial. O conflito constante entre genialidade e bem-estar mental ecoa o suspense psicológico presente em Cross, onde o embate intelectual é tão ou mais tenso que confrontos físicos.
Imagem: Internet
Documentário amplia discussões sobre gênero e genialidade no esporte
Ao contextualizar as conquistas da enxadrista, o filme evidencia como cada lance de Judit Polgár reverberou além do tabuleiro. Jornalistas da época apontavam que sua ascensão remodelava a imagem internacional da Hungria e, sobretudo, das mulheres nos esportes mentais. Em pleno século XXI, o debate permanece atual.
Discriminada em torneios que ainda dividiam categorias por sexo, Polgár discutiu publicamente o absurdo da separação, defendendo que as peças não distinguem gênero. A narrativa resgata essa pauta com depoimentos de adversários e especialistas, reforçando que igualdade continua sendo um tema em xeque.
Rainha do Xadrez vale o play?
Mesmo sem atores encarnando personagens fictícios, Rainha do Xadrez entrega uma experiência emocional robusta. A presença de Judit Polgár em frente à câmera, relembrando partidas decisivas, funciona como performance viva: cada pausa, suspiro ou sorriso carrega décadas de história condensadas.
Para quem sente falta da estética vintage de O Gambito da Rainha, a direção de arte supre parcialmente o desejo ao restaurar fitas antigas com cores suaves e figurinos típicos da época, mas sem abrir mão de um acabamento moderno. O resultado combina nostalgia e urgência contemporânea.
No catálogo da Netflix, a produção se destaca não apenas como relato esportivo, mas como estudo sobre ambição, família e identidade. Nesse sentido, justifica o hype: é conteúdo que conversa com fãs ocasionais de séries, leitores do Blockbuster Online e veteranos do tabuleiro com igual intensidade.
