Quando o assunto é entretenimento de ação para “pais de sofá”, Jack Reacher costuma aparecer como referência imediata. Ainda assim, a Netflix acaba de lembrar que há outras formas de conduzir um thriller musculoso sem recorrer a pancadaria contínua. O filme Rebel Ridge, dirigido por Jeremy Saulnier, aposta na paciência, na disciplina do protagonista e em uma atmosfera opressiva para criar algo tão explosivo quanto o seriado da Prime Video, mas com fôlego renovado.
O longa chega carregado de elogios, inclusive um índice de aprovação de 95% no Rotten Tomatoes, desempenho que chama atenção ao lado das três temporadas de Reacher. A comparação é inevitável, sobretudo porque ambos trazem veteranos militares que se envolvem em conspirações locais. Porém, aqui a conversa é menos sobre quem derruba mais inimigos e mais sobre como se constrói tensão cinematográfica. E nisso Rebel Ridge dá uma aula.
Direção de Jeremy Saulnier intensifica o suspense
Conhecido por thrillers independentes como Sala Verde, Jeremy Saulnier demonstra absoluto controle de ritmo em Rebel Ridge. Em vez de abrir o filme com uma explosão ou um soco, o diretor prefere filmar silêncios, olhares e longos planos que entregam informações de forma quase imperceptível. A atmosfera lembra o trabalho que David Fincher faz em alguns projetos, só que com a pegada crua característica de Saulnier.
Câmera na mão, fotografia levemente dessaturada e uso inteligente de sombras convergem para criar sensação de inquietação constante. Há, inclusive, um notável contraste entre as paisagens tranquilas do interior e o mal-estar escondido por trás de fachadas amistosas, recurso que impede a plateia de relaxar. O resultado é um suspense que acumula pressão como uma panela prestes a explodir, sem que o espectador perceba exatamente quando o estouro virá.
Roteiro privilegia tensão psicológica
Rebel Ridge nasceu de um argumento escrito pelo próprio Saulnier ao lado de Macon Blair, parceiro frequente do diretor. Juntos, eles optam por subverter a fórmula clássica do justiceiro errante: Terry Richmond não é um tanque de guerra que resolve tudo no murro, e sim um ex-fuzileiro que tenta, inicialmente, agir dentro da lei.
Essa escolha narrativa adiciona camadas de humanidade ao personagem. Enquanto Jack Reacher costuma aplicar lógica detectivesca para justificar a força bruta, Richmond segue um caminho inverso: confia no sistema até perceber que o sistema é parte do problema. Quando finalmente parte para a violência, cada golpe carrega a frustração de alguém que não vê outra saída — e o roteiro faz questão de evidenciar o peso dessas decisões.
Outro mérito do script é a maneira como introduz antagonistas com motivações complexas. Não existe vilão cartunesco; existe corrupção institucional, ganância e medo de perder privilégios. A tensão se alimenta disso, numa espiral que faz o público questionar quem realmente detém o poder na cidadezinha.
Atuação de Aaron Pierre eleva Rebel Ridge
Aaron Pierre assume Terry Richmond com uma fisicalidade impressionante, porém o que mais chama atenção é sua contenção. O ator, revelado em O Último Rei da Escócia e consolidado na série Tempo, segura a raiva do personagem como se fosse um gato selvagem prestes a saltar. Essa energia represada torna cada microexpressão significativa.
Quando finalmente surgem as cenas de combate, Pierre mostra preparo físico digno de manual de artes marciais dos fuzileiros, mas evita qualquer glamourização. Os movimentos são secos, rápidos e, acima de tudo, calculados. O realismo brutal reforça o impacto emocional, lembrando que a violência tem custo alto, algo muitas vezes diluído na grandiloquência coreografada de Reacher.
Imagem: Internet
Entre os coadjuvantes, David Denman vive o oficial Evan Marston com ambiguidade suficiente para manter a audiência em dúvida: ele é cúmplice do esquema ou um agente preso às engrenagens? Essa incerteza alimenta a trama e demonstra como o elenco entende a proposta intimista do filme.
O que Reacher pode aprender com Rebel Ridge
Reacher atraiu milhões ao mostrar Alan Ritchson quebrando ossos em prisões, motéis e estradas poeirentas. Contudo, após três temporadas, parte do público questiona se a série pode evoluir além da fórmula “dedução + surra”. Justamente por adaptar Gone Tomorrow, quarto ano do programa tem chance de ampliar o leque, investindo em suspense psicológico semelhante ao de Rebel Ridge.
A cena do trem descrita no livro de Lee Child — quando Reacher avalia sinais de um possível homem-bomba — ilustra o potencial desse caminho. Ao seguir estratégia de tensão crescente, o show do Prime Video poderia apresentar um herói fisicamente invulnerável, mas emocionalmente testado pelo medo de errar o diagnóstico. Essa vulnerabilidade aproximaria Jack Reacher de Richmond, elevando o drama sem sacrificar a ação.
Mesmo serviços de streaming rivais percebem essa demanda por nuance. A própria Netflix reforçou a preferência do público por thrillers que mesclam adrenalina e cérebro ao lançar a terceira temporada de O Agente Noturno, frequentemente citado como substituto de Reacher. A lição é clara: a força bruta segue útil, mas não basta.
Vale a pena assistir Rebel Ridge?
Para quem busca um thriller de ação menos pirotécnico e mais calcado em suspense, Rebel Ridge é indicação certeira. A combinação de direção meticulosa, roteiro que prioriza consequências e atuações contidas oferece experiência tensa do primeiro ao último minuto. O longa também funciona como contraponto refrescante à rotina de super-heróis bombados, algo discutido nos bastidores da fase 5 do MCU em análises recentes.
No fim das contas, o filme de Jeremy Saulnier entrega o mesmo combustível que fez de Reacher um fenômeno, só que filtrado por lente realista — e talvez até mais incômoda. Blockbuster Online seguirá de olho, especialmente se a Netflix resolver transformar Rebel Ridge em franquia. Até lá, vale conferir essa aula de construção de tensão e julgar por conta própria qual abordagem de justiceiro convence mais.
