“Shrinking” desembarca na Apple TV+ para seu terceiro ano sem perder o fôlego da combinação entre humor ácido e drama existencial. A estreia coloca o espectador novamente no divã de Jimmy Laird, mas quem rouba a cena é o veterano Harrison Ford, agora mais vulnerável que nunca, e o convidado especial Michael J. Fox, em uma participação curta, porém marcante.
A equipe criativa — Bill Lawrence, Jason Segel e Brett Goldstein — retoma as rédeas com a mesma linguagem direta que encantou a audiência em 2023. O resultado é um episódio que avança a narrativa, mas abre espaço para momentos de observação quase clínica sobre envelhecer, perdoar e, sobretudo, continuar em frente.
A atuação de Harrison Ford ganha camadas dolorosas
Paul, o terapeuta vivido por Harrison Ford, inicia a temporada sofrendo com a piora dos sintomas de Parkinson. O roteiro coloca a doença no primeiro plano já na cena de abertura, quando o simples ato de escovar os dentes se torna um obstáculo. Ford explora cada tremor como se fosse uma fala não dita, demonstrando desconforto, raiva e ― em pequenos lampejos ― humor autoirônico.
A transformação física do personagem é acompanhada por escolhas delicadas de direção. Bill Lawrence aposta em closes que capturam microexpressões de cansaço, permitindo que Ford brilhe sem grandes discursos. Nos bastidores, comenta-se que o ator gravou boa parte das cenas com poucas repetições, reforçando a naturalidade de suas reações.
Michael J. Fox surge para espelhar a jornada de Paul
Convidado para viver Gerry, paciente que também convive com Parkinson, Michael J. Fox faz uma participação que dura poucos minutos e vale cada segundo. Ele e Ford dividem a tela em um consultório médico, conversando sobre remédios, medos e aquela sensação de contagem regressiva invisível que a doença impõe.
Fox, diagnosticado em 1991, traz bagagem pessoal que transcende a atuação. Quando Gerry solta a frase “estamos no mesmo trem rumo a Sucksville”, o momento ganha honestidade rara, sem descambar para o melodrama. Essa conversa serve de gatilho narrativo: Paul adota o mantra “que se dane o Parkinson” e decide viver de modo ainda mais intenso, escolhendo um passeio de carro imprudente para provar seu ponto.
Química do elenco mantém o ritmo emocional
Enquanto Paul enfrenta o avanço da doença, Jimmy (Jason Segel) continua o processo de reconstrução familiar. Ele e a filha Alice trocam diálogos que equilibram sarcasmo e afeto, lembrando ao público por que a série conquistou espaço no catálogo da Apple TV+. Segel atua como eixo cômico, mas oferece vulnerabilidade suficiente para não transformar o drama em simples gag.
Do outro lado, a amizade improvável entre Jimmy e Louis (Brett Goldstein) ganha contornos de cumplicidade. A dupla discute futuro e culpa com comentários mordazes, mantendo o espectador envolvido. O roteiro evita moralizar: ao invés de “lições de superação”, entrega pequenas vitórias, como a ida de Louis a uma entrevista de emprego que pode — ou não — ocorrer.
Imagem: Internet
Direção e roteiro exploram temas de passagem sem sentimentalismo
A sensação de movimento permeia todo o episódio. Alice é observada por um olheiro da Wesleyan University, e a tensão de um possível adeus paira no ar. A montagem alterna entre o nervosismo da partida e o entusiasmo do gol marcado, costurando trilha sonora leve que ecoa o clima agridoce.
Além disso, a decisão de Paul e Julie (Wendie Malick) de oficializar a união funciona como comentário prático sobre burocracias médicas. Gabby (Jessica Williams), na função de “cerimonialista improvisada”, representa a resistência ao conformismo: ela enxerga beleza no caos, defendendo uma festa caseira em vez de cartório. A sequência rende um dos planos mais festivos da série, com direito a todos os personagens dançando na sala — momento que remete à paixão coletiva por celebrações íntimas, semelhante ao que James Wan busca ao retornar às origens cruas de “Jogos Mortais”.
Vale a pena assistir à nova temporada de Shrinking?
Para quem se identifica com narrativas de luto, segunda chance e humor agridoce, “Shrinking” mantém sua relevância. A performance detalhada de Harrison Ford eleva qualquer expectativa, enquanto a participação de Michael J. Fox adiciona camadas emocionais sem soar apelativa. O texto de Bill Lawrence continua amarrando situações cotidianas a reflexões universais, evitando fórmulas fáceis.
Outro ponto a considerar é a evolução do elenco de apoio. Jessica Williams, Luke Tennie e Christa Miller ganham cenas que reforçam a coesão do grupo, algo essencial para segurar a audiência episódio após episódio. A série ainda acerta na fotografia ensolarada de Pasadena, transmitindo leveza visual mesmo quando o assunto é pesado.
Quem acompanha o catálogo do Blockbuster Online sabe que séries que equilibram riso e dor raramente entregam tanta consistência em seu terceiro ano. “Shrinking” faz isso ao humanizar personagens e recusar resoluções mágicas. Para o espectador que busca identificação realista, o retorno vale cada minuto.
