Um mineiro de ouro, onze palavras ditas em noventa e um minutos e litros de sangue espalhados pela tela. “Sisu”, produção finlandesa de 2022, desafiou a cartilha do cinema de ação ao apostar na expressão corporal em vez de tiradas de efeito. O resultado? Um índice de aprovação de 94% no Rotten Tomatoes e a reputação de sleeper hit que circula pelos streamings.
Dirigido por Jalmari Helander e estrelado pelo pouco conhecido Jorma Tommila, o longa coloca um ex-comando solitário contra um pelotão nazista nos estertores da Segunda Guerra. Sem grandes estrelas ou orçamento inchado, o projeto virou queridinho da crítica graças a um equilíbrio improvável entre gore exagerado e precisão narrativa. A seguir, destrinchamos o que faz essa experiência tão singular.
Silêncio que fala alto: a atuação de Jorma Tommila
Aatami Korpi é apresentado como um homem que cava em busca de ouro nas paisagens áridas da Lapônia em 1945. Tommila veste o personagem com um minimalismo quase ritualístico: o olhar fixo, a respiração contida e movimentos calculados substituem páginas inteiras de diálogo. Ao todo, o protagonista pronuncia apenas onze palavras durante o filme, criando uma atmosfera de tensão permanente.
Esse uso radical do silêncio lembra figuras icônicas, como o T-800 de “O Exterminador do Futuro 2” ou Max Rockatansky em “Estrada da Fúria”. Porém, enquanto aqueles personagens revelam gradualmente camadas emocionais, Korpi permanece um mistério. Cada gesto é revelador: ao acariciar o saquinho de pepitas, ao enfaixar os próprios ferimentos ou ao encarar os inimigos sem piscar. A performance exige disciplina física intensa, algo que o elenco de sucessos listados em estudos de atuação recentes também demonstra.
Violência estilizada e direção competente de Jalmari Helander
Conhecido por “Caçador de Troll” e “Papai Noel às Avessas”, Helander refina aqui seu apreço pela fantasia grotesca. Para aproveitar o orçamento enxuto, o cineasta privilegia cenários naturais – pântanos lamacentos, estradas destruídas, ruínas carbonizadas – que ampliam a sensação de fim de mundo. Essa geografia inóspita funciona como um tabuleiro de xadrez onde cada obstáculo produz novas coreografias de morte.
A câmera de Kjell Lagerroos captura as explosões de violência sem tremer em excesso, permitindo que o público acompanhe a criatividade dos assassinatos. Um dos momentos mais comentados envolve uma mina terrestre reutilizada como arma corpo a corpo, resumindo a estética do filme: absurdo gráfico com rigor técnico. Helander dosa bem a ação pura e momentos de suspense, mantendo o ritmo acelerado mesmo quando o protagonista permanece imóvel atrás de uma rocha.
Roteiro enxuto e simbolismo de uma palavra intraduzível
Assinado pelo próprio diretor, o roteiro abraça a simplicidade: Korpi encontra ouro, nazistas roubam, ele cobre a trilha de corpos até recuperar o tesouro. A trama linear reduz distrações e reforça o conceito de “sisu” – termo finlandês que representa coragem obstinada diante do impossível. Essa ideia permeia cada cena, transformando o protagonista em metáfora ambulante da resiliência nacional.
Outro diferencial é a ausência de vítimas inocentes. Todos os alvos pertencem ao exército de ocupação ou colaboram com ele, o que confere prazer catártico às execuções. Até mesmo o grupo de mulheres aprisionadas, resgatado no segundo ato, retorna à narrativa como força ativa, não apenas como figurantes vulneráveis. O texto evita humor verbal; a comicidade surge do exagero gore, evocando comparações com “Bastardos Inglórios”.
Imagem: Internet
Recepção crítica e o caminho de um sucesso inesperado
Lançado nos Estados Unidos pela Lionsgate, “Sisu” chegou com divulgação limitada, mas logo conquistou manchetes por seu Rotten Tomatoes reluzente. A imprensa destacou o equilíbrio entre brutalidade e elegância visual, além da performance hipnótica de Tommila. O filme reuniu opiniões positivas de portais especializados em ação, horror e até de quem costuma priorizar dramas de prestígio.
O status de sleeper hit se consolidou após a chegada ao The Roku Channel, onde a produção ganhou novo público graças ao boca a boca. A continuação “Sisu: Estrada da Vingança” já foi confirmada com o mesmo diretor e elenco principal, mantendo a premissa de ação quase muda. Para o mercado de streaming, normalmente dominado por franquias gigantes, esse tipo de aposta lembra movimentos da Marvel em projetos paralelos, como o drama citado em “Wonder Man”.
Vale a pena assistir Sisu?
Por reunir linguagem visual precisa, violência estilizada e um protagonista que comunica mais com o olhar do que com palavras, “Sisu” oferece experiência singular no catálogo de ação contemporânea. Quem busca adrenalina sem compromissos narrativos extensos encontrará noventa minutos de tensão crescente.
Além da diversão bruta, o filme serve como estudo de atuação minimalista. Jorma Tommila confirma que presença física e controle gestual podem substituir monólogos inteiros. Para espectadores atentos à direção, Helander demonstra como transformar limitações orçamentárias em inventividade estética.
O longa já figura entre os títulos mais comentados pelos leitores do Blockbuster Online e merece atenção especial de fãs de vingança estilizada, guerra histórica e cinema europeu ousado. Caso a curiosidade fale mais alto, a produção está disponível gratuitamente no The Roku Channel e prepara terreno para sua sequência.
