Revelado de surpresa no Partner Showcase de fevereiro, Tokyo Scramble chegou ao Nintendo Switch 2 apenas sete dias após o anúncio. O lançamento relâmpago levantou suspeitas sobre a confiança da publisher Binary Haze Interactive no projeto, principalmente porque o título dividiu os holofotes com Mario Tennis Fever, outro exclusivo aguardado para a mesma semana.
Depois de pouco mais de cinco horas encarando dinossauros bizarros, cavernas claustrofóbicas e um stealth que exige mais paciência que estratégia, é fácil entender o motivo da pressa. Mesmo ostentando o selo “exclusivo Switch 2”, o jogo parece estacionado na geração do PS3 — e não apenas no visual.
Enredo confuso prende a protagonista em um subterrâneo sem emoção
A trama acompanha Anne, adolescente que desperta em uma rede de ruínas sob Tóquio infestada pelos Zinos, criaturas que lembram raptores, morcegos gigantes e até louva-a-deus. A premissa poderia render suspense à la Alien, mas esbarra em diálogos rasos apresentados quase sempre como bolhas de texto coloridas. A ausência de cutscenes, aliada a personagens que nunca aparecem em tela, dificulta qualquer conexão com o drama da heroína.
O único rosto humano além de Anne é Ray, figura caricata que surge esporadicamente para soltar frases sem sentido. Os dubladores se esforçam, porém o roteiro não oferece material digno de nota. Em certos momentos, a estranheza atinge o nível “tão ruim que diverte”, mas isso não é exatamente um mérito.
Stealth baseado em tentativa e erro transforma tensão em tédio
Ao contrário de protagonistas de survival horror que portam escopetas ou pistolas, Anne depende apenas da furtividade. Cada fase funciona como um quebra-cabeça rígido: descobrir o movimento perfeito, na ordem exata, para chegar ao ponto de saída. Se o jogador improvisa, o jogo pune com morte instantânea, já que qualquer toque de um Zino é fatal.
O celular da garota oferece um flash que atordoa inimigos por alguns segundos — recurso tão poderoso que ofusca outras habilidades desbloqueadas mais tarde. Como a bateria precisa ser recarregada em terminais espalhados pelos cenários, o dispositivo vira mais um elemento de gerenciamento do que de criatividade. As interações ambientais, como ligar uma máquina de pipoca para distrair monstros, até trazem frescor; o problema é que os próprios objetivos secundários denunciam sua existência e tiram o prazer da descoberta.
Direção de arte datada compromete a imersão
Apesar de rodar no hardware mais recente da Nintendo, Tokyo Scramble exibe texturas em baixa resolução e modelos que se atravessam mutuamente. Quando um Zino golpeia Anne, as garras atravessam o corpo da personagem, que depois escorrega pelo chão sem peso algum. Estamos em 2026, mas o polimento lembra lançamentos de quinze anos atrás.
Imagem: Internet
As animações de corrida chamam atenção pelo defeito: se o jogador solta o direcional, Anne desliza como se patinasse. Em trechos que exigem equilíbrio sobre vigas, a personagem simplesmente flutua para reposicionar os pés, quebrando qualquer ilusão de realismo. A direção de Masato Hayashi — veterano do estúdio Adglobe — fica devendo no acabamento visual e sonoro, onde efeitos se repetem à exaustão nos momentos mais difíceis.
Modo cooperativo divide comandos e multiplica a frustração
Utilizando o GameShare do Switch 2, até quatro pessoas podem controlar Anne simultaneamente: uma movimenta, outra gira a câmera, a terceira ativa aplicativos do celular e a última comanda ações como agachar ou correr. A ideia remete ao caos divertido de partidas locais, porém, na prática, gera confusão constante. Serve para dar risada por alguns minutos, nunca para levar a sério.
A campanha principal reúne 22 fases lineares e checkpoints generosos que impedem perda excessiva de progresso. Ainda existe um modo difícil, mas a curva de aprendizado não acompanha o salto de exigência; o stealth, que já era exaustivo, transforma-se em repetição irritante. Para quem busca experiências de sobrevivência com criaturas pré-históricas, compilações como a Coleção Clássica de Jurassic Park oferecem nostalgia sem sacrificar a diversão.
Tokyo Scramble vale a pena?
No fim, Tokyo Scramble entrega pouco além de estranheza ocasional. A direção de Masato Hayashi não consegue equilibrar desafio e entretenimento, enquanto o roteiro, escrito por Yuko Yamashita, desperdiça seu potencial de terror urbano. Com visuais antigos, dublagem esforçada porém limitada e mecânicas de furtividade engessadas, o exclusivo do Switch 2 torna-se uma curiosidade a ser conferida apenas pelos mais pacientes — ou pelos colecionadores que não deixam escapar nenhum título novo do console.
O Blockbuster Online seguirá acompanhando o catálogo do sistema da Nintendo. Enquanto isso, talvez seja mais interessante ficar de olho em projetos que prometem evoluir em narrativa e mecânicas, como o recém-anunciado Kena: Scars of Kosmora, do que insistir em uma fuga subterrânea que pouco recompensa o jogador.
