Em 1999, antes de qualquer universo compartilhado dominar as salas de cinema, Varsity Blues chegou discreto e sem muitas pretensões. Quase 25 anos depois, o longa ressurge nas conversas de cinéfilos quando o assunto é filmes de futebol americano, mas ainda não conquistou o reconhecimento que merece.
O projeto, comandado por Brian Robbins e roteirizado por W. Peter Iliff, transformou James Van Der Beek de queridinho das séries teen em protagonista de cinema, além de funcionar como vitrine para nomes como Paul Walker e Ali Larter. Mesmo com bilheteria sólida à época, a crítica não viu, naquele momento, a potência dramática escondida por trás dos clichês.
James Van Der Beek assume a camisa 12 e entrega sua melhor atuação
Conhecido por Dawson’s Creek, Van Der Beek interpreta Jonathon “Mox” Moxon, o quarterback reserva de uma escola do interior do Texas que se vê titular quando o astro do time se machuca. O ator troca o romantismo adolescente da TV por uma composição mais contida, guiada por olhares de inquietação e um sotaque sulista convincente. Seu célebre grito “I don’t want your life” sintetiza a rebeldia de um jovem esmagado pelas expectativas de uma cidade obcecada pelo futebol.
A naturalidade com que o protagonista oscila entre frustração, humor sarcástico e sensibilidade comove. Não há truque de montagem nem trilha grandiloquente que explique o impacto: é puro trabalho corporal e vocal. Em retrospecto, torna-se curioso perceber como Hollywood não capitalizou essa performance para alçar Van Der Beek a papéis dramáticos mais robustos.
Elenco de apoio eleva as jogadas fora do campo
Ao lado do protagonista, um plantel promissor desponta. Paul Walker, já com uma década de experiência, empresta carisma a Lance Harbor, o quarterback titular que sofre contusão séria. A química fraterna entre Walker e Van Der Beek sustenta cenas que vão além do esporte, explorando amizade, inveja e responsabilidade.
Scott Caan injeta energia e sarcasmo como o wide receiver Tweeder, figura que ele próprio revisitara anos depois em papéis de bad boy. Amy Smart confere doçura a Jules, interesse romântico que desafia o protagonista a mirar na universidade e não só na end zone. Já Ali Larter eterniza o icônico “biquíni de chantilly”, cena que alimentou a cultura pop dos anos 2000. Esse conjunto, somado ao trabalho generoso de Jon Voight como o técnico tirânico Bud Kilmer, cria um mosaico de arquétipos que encontram vida própria.
Direção e roteiro: ritmo acelerado, mas sem perder o humanismo
Brian Robbins dirige com a segurança de quem entende o apelo comercial de um jogo bem filmado, porém não abre mão de momentos contemplativos nos vestiários e nos corredores da escola. As jogadas são captadas em planos próximos, sujos de lama, quase documentais, transmitindo fisicalidade. Entre uma descida e outra, cortes rápidos revelam a pressão comunitária que recai sobre cada adolescente.
Imagem: Internet
O roteiro de W. Peter Iliff, conhecido por Caçadores de Emoção, combina diálogos espinhosos a situações reconhecíveis — brigas familiares, festas de sexta-feira, reuniões na igreja local. Ainda que recorra a clichês do gênero coming-of-age, o texto evita glamourizar lesões ou a cultura de excessos, antecipando discussões que seriam aprofundadas em produções posteriores, como Friday Night Lights. A ausência de cinismo, numa década cética, talvez explique por que muitos críticos torceram o nariz em 1999.
Legado, tragédias e redescoberta do drama esportivo
Varsity Blues contou com orçamento enxuto e arrecadou US$ 54 milhões mundialmente, valor respeitável para a época. Ainda assim, permaneceu na sombra de outros teen movies lançados no mesmo ano. Com o passar dos anos, tragédias reais acabaram associando-se ao filme: Paul Walker morreu em 2013, Ron Lester (o memorável Billy Bob) em 2016 e, mais recentemente, a notícia da morte de James Van Der Beek sacudiu fãs.
Essas perdas despertaram uma nova audiência para a obra, agora vista em streamings e edições comemorativas em mídia física. A reavaliação crítica vem acompanhada de comparações com outros títulos subestimados, tal qual o recente documentário Rainha do Xadrez, da Netflix, citado pelo Blockbuster Online como exemplo de produção que ganhou força no boca a boca.
Vale a pena assistir hoje?
Para quem busca um drama esportivo temperado com conflitos adolescentes, Varsity Blues continua relevante. As atuações de James Van Der Beek e Paul Walker permanecem frescas, a direção mantém ritmo envolvente e o roteiro antecipa debates sobre saúde e pressão psicológica em jovens atletas. Mesmo que algumas passagens pareçam datadas, o longa segue como registro sincero de uma geração pendurada entre o sonho de vitória e o medo do fracasso.
